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quarta-feira, 11 de junho de 2014

A transcendência se mostra... educamos nosso olhar? (por Mario Sergio Cortella)



O Professor Mário Sérgio Cortella é uma pessoa fora-de-série, palestrante e escritor de primeira linha, e um ser humano simpático, boníssimo e que espalha para tudo em seu entorno alegria e  otimismo, sabedoria e inteligencia. E faz da filosofia algo prático e útil. A ele, fica aqui a homenagem, e a vc, colega que me lê, a recomendação para que conheça seus artigos, livros e palestras. Se quiser dica por onde começar, o livro "Não se desespere" é uma pérola.
Com abraço forte a todos,
William Douglas



A transcendência se mostra... Educamos nosso olhar?
Mario Sergio Cortella*

         Cidade de São Paulo, seis horas da tarde, chovendo sem parar, Eu, ainda molhado pela chuva, dentro de um trem do metrô lotado, indo para a universidade dar aulas (já entrando na terceira jornada de um longo dia). Fome, vontade de tomar um banho, ficar em casa à noite, descansar.
O trem vai bem devagar (problemas na energização dos trilhos) e, a cada estação, mais gente adentra, espremendo-se em pé, segurando sacolas, pastas, bolsas e guarda-chuvas; janelas do vagão fechadas (por causa dos trechos ao ar livre do trajeto); ar-condicionado desligado (para economizar eletricidade emergencial); calor, abafamento, odores marcantes por todos os lados.
Meu desejo? Sumir dali, sair de perto, desencostar de tantas pessoas, cheiros, ruídos e suores. Paz, quero paz!
         De repente, próximo à porta do vagão, uma mulher com uma criancinha no colo, a pequena com a cabeça debruçada por cima do ombro da provável mãe. A menininha  olha para mim e, sem razão maior, sorri.
         Pronto. Durante segundos (mas sentidos como uma deliciosa eternidade), desaparecem todos os transtornos à minha volta. Não há mais chuva fora, não há mais pressa, não há mais cansaço, não há mais nada, exceto uma sensação de encantamento e uma vontade imensa de retribuir o sorriso. Eu o faço e, rápida, a criança simula esconder o rostinho com as mãos, agora rindo.
         O trem chega à estação na qual devo descer; saio, reconfortado pelo alcance admirável e profundo de um sorriso despretensioso e verdadeiro. Saio, sentindo-me abrigado pela experiência de um mistério que faz cessar qualquer turbulência.
         Que experiência foi essa? Durante o caminho até a sala de aula,  bastante animado (cheio de anima/alma), procurei lembrar-me de outras experiências que tivessem, para mim, o mesmo significado: o encontro (ainda que fugaz) com a emoção simples, com a gratuidade amorosa, com o sentimento de  proteção de minha existência, com a espantosa beleza de algumas coisas e gestos.    
Quando pude, antes, viver a mesma experiência que a do sorriso infantil e desprendido? Quando pude, antes, experimentar a calma certeza interior de que não estou abandonado à minha própria sorte ou entregue à solidão de angústias sem socorro? Quando pude, antes, provar do sabor da alegria compartilhada ou da solidariedade sincera? Quando pude, antes, presenciar a formosura do mundo ou a lindeza do que nele está?
Quando pude? Muitas e muitas vezes; esse mistério se mostrou e se mostra a mim e a todos e todas de inúmeras maneiras. Nem sempre o reconheci, nem sempre nele prestei atenção; porém, sempre esteve presente.
Quando, então?
Quando, por exemplo:
·        da primeira vez que fui ao mar, aos cinco anos de idade, e, olhando aquela imensidão, segurei-me na mão de meu pai enquanto pequenas ondas quase me tiravam do lugar (e eu, firmemente desafiante, não saía);
·        ainda criança, voltava, saudoso, para o lar, depois de uma temporada de férias em casa de parentes, e me regalava preguiçosamente na cama, aspirando os lençóis em busca de um cheiro que só neles existia;
·        em noites de frio na infância, minutos antes de dormir, percebia minha mãe, sorrateira, puxar as cobertas por sobre o meu peito e, dar-me, de leve, um beijo na testa, enquanto recitava baixinho uma oração da qual nunca me separei (“Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a Ti me confiou a Bondade Divina, guardai-me e protegei-me por todos os dias de minha vida”);
·        nas comemorações de aniversários, com irmãos, parentes e amigos em volta, eu assoprava as velinhas (poucas, na época) e sentia um calor dentro do peito que me dava a certeza de ser querido;
·        aos dez anos de idade, fui, ao velório de um amiguinho que se afogara em uma represa e, vi os pais dele sendo envolvidos por dezenas de abraços silenciosos e apertados, lágrimas de adultos expressando uma dor que era de todos, marcando, para mim, a noção de que se com a morte não nos conformamos, ao menos nos confortamos;
·        nasceu meu primeiro filho e, após o parto, sozinho no quarto da maternidade, chorei de gratidão pela dádiva de poder, também, desdobrar minha vida (e não me satisfiz com esse primeiro agradecimento, pois, outros partos ocorreram, outros choros vieram);
·        ao assistir, ouvir ou ler o noticiário, doem em mim as dores das guerras, das fomes, das epidemias, dos desastres ecológicos, das violências físicas ou simbólicas, e me esforço para não me acostumar, fraturando minha humanidade;
·        fico extasiado no dia a dia, ao observar que a violeta que plantei renova-se exuberante a cada regada, que os gatos de casa se enrolam nos meus pés quando chego, que as brincadeiras familiares na hora da refeição vão amalgamando a convivência (às vezes transtornada), que o passar das mãos de minha mulher sobre meus cabelos (de forma sutil e cuidadosa) mostram a amorosidade de um percurso parceiro;
·        ao ouvir música (muitas vezes quieto, na penumbra), procuro fruir a imensa capacidade de produzir emoção de um Mozart (como ele conseguiu, de forma contraditória, alegrar minha vida com a Missa de Réquiem?) ou de um Catulo da Paixão Cearense (“ontem ao luar, nós dois em plena solidão, tu me perguntaste o que era a dor de uma paixão...”);
·        ao participar de um culto, provo com outros e outras do extenso desejo que temos de partilhar a vida, demonstrando nossos temores e reconhecimentos, buscando continuamente a preservação generosa de um sentido de viver arrebatador e que não queremos que cesse.
Escolhi acima algumas situações especiais e marcantes para mim mesmo, mas, quem não as têm ou terá, de alguma forma? Quem consegue não contar outras delas, inúmeras, infindas, múltiplas? Alguém é capaz de passar incólume e afirmar que nunca foi tocado por impressões desse tipo?
Todas essas experiências antes relatadas são, acima de tudo, experiências religiosas. São vivências impregnadas (isto é, grávidas) de religiosidade, pois todas apresentam faces de uma ligação com a vida e sua sacralidade conjunta que transpõe a materialidade das coisas, a provisoriedade dos acontecimentos humanos, a transitoriedade do tempo.
Todas elas nos ligam e religam com a convicção de que o sentido (na dupla acepção de significado e direção) da existência excede os limites da mundidade e alcança a humanidade para além das histórias individuais que a compõem. São, assim, experiências da transcendência.
É preciso educar nossa atenção aos conteúdos dessas experiências; é preciso afinar nossos sentidos e sentimentos para não deixá-las passar como fatos corriqueiros; é preciso perceber que, provavelmente, a transcendência está nos detalhes inesquecíveis, e, por isso,  fundamentais.
É necessário que os que lidamos com Educação possamos compartilhar esses detalhes com as crianças e jovens com os quais trabalhamos, trazendo à tona as experiências  (nossas e deles) que cada um e cada uma carrega e que apontam para a percepção pessoal das memórias e vivências da transcendência.
É imprescindível não recusar esse encontro com a admirável presença de um mistério que ultrapassa a mim mesmo, minha  vida e este próprio mundo, mas do qual, surpreendentemente, percebo nele e dele participar. E, mais ainda, sei e sinto não estar sozinho.
Afinal, ser humano é ser junto.



* Mario Sergio Cortella, filósofo, é doutor em Educação pela PUC-SP, na qual é professor do Departamento de Teologia e Ciências da Religião e do Pós-Graduação em Educação (Currículo).
 



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Enchendo balões numa festa de criança (por Israel Belo de Azevedo)



por Israel Belo de Azevedo

Numa festa para crianças, tocou-me, antes do início, encher os balões.
Os balões se comportaram muito bem. Eram rosas. Coloriram e alegram o ambiente, num aniversário de menina. Resistiram até o fim.
Ao final da festa, precisei ajudar a explodi-los. Vazios, ocupam pouco espaço. Cheios, parecem que ocupam o mundo.
Balões de festa (chamadas de bexigas, em outras lugares) são uma boa metáfora para os nossos projetos.
Quando, murchos ainda, começam a ganhar o ar de nossos pulmões, representam os nossos sonhos. Cheios, penduradas na sala, são os nossos projetos. Ao fim, são estourados porque cumpriram seu objetivo: alegrar a festa.
Nasce o sonho, que se torna projeto, que culmina em realidade. Este é o ciclo, que precisamos renovar com novos sonhos e novos projetos.
Falhamos quando não temos projetos.
Falhamos também quando permitimos que estourem nossos balões antes do fim da festa. Precisamos, como balões, ficar no alto da sala, para que o alfinete da crítica não nos esvazie, para que o soco da amargura não nos trave, para que o ataque dos “sábios” que nada realizam não nos desanime.
Há vidas que esperam por nós. Vamos alegrá-las com os nossos balões.





terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Enfrente o futuro com Deus (por Max Lucado)




por Max Lucado


Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu. (Eclesiastes 3.1)

Que pessoa passa pela vida livre de surpresas? Lembra do resumo de Salomão? “Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu” (Ec 3.1).
Deus concede vida da maneira como administra o cosmo: por meio de períodos. Quando pensamos no planeta Terra, entendemos a estratégia de bom dia_MaxLucadogerenciamento de Deus. A natureza precisa do inverno para descansar e da primavera para despertar. Não entramos apressadamente em abrigos subterrâneos ao ver os brotos das árvores na primavera. As cores do outono não disparam sirenes de alarme. As estações terrestres não nos perturbam, mas as situações pessoais inesperadas sim…
Você está prestes a passar por uma mudança? Você se vê analisando um novo capítulo? A folhagem do seu mundo está mostrando sinais de nova estação? A mensagem do céu para você é clara: quando tudo o mais mudar, a presença de Deus não mudará. Viajamos na companhia do Espírito Santo, que “lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu lhes disse” (Jo 14.26).
Deus Pai, o próximo minuto ou a próxima hora podem trazer um capítulo totalmente novo para minha vida. Pode não ser aquele que eu escolheria, mas será um que escolheste para mim por amor.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Alegria fora de hora (por Ed René Kivitz)




por Ed René Kivitz

Meus irmãos, considerem motivo de grande alegria o fato de passarem por diversas provações, pois vocês sabem que a prova da sua fé produz perseverança. E a perseverança deve ter ação completa, a fim de que vocês sejam maduros e íntegros, sem lhes faltar coisa alguma. (Tiago 1.2-4)
Tiago, irmão de Jesus, escreveu uma carta aos cristãos que estavam sofrendo perseguição. Eles haviam sido expulsos de Jerusalém e deixado para trás seus bens, familiares e amigos. Estavam começando vida nova em outro lugar, e precisavam construir novos relacionamentos, redefinir sua carreira profissional e ainda por cima se defender dos ataques daqueles que se opunham à sua fé em Jesus Cristo.
Um dos conselhos de Tiago para aqueles cristãos em situação tão adversa foi que deveriam receber com alegria as tribulações e provações que a vida colocava diante deles. Tiago justificou seu conselho apresentando três conseqüências das tribulações.
As tribulações provam a nossa fé, isto é, revelam a qualidade dos alicerces onde construímos nossas vidas. Outra maneira de dizer isso é que as tribulações nos mostram quem de fato somos. Muitas pessoas vivem iludidas em relação a si mesmas, e por esta razão constroem suas vidas em alicerces falsos – e vice-versa. Cedo ou tarde estes alicerces são desmascarados e tudo o que está sobre eles pode ruir, como por exemplo: auto-estima, esperança, prazer de viver, relacionamentos, sonhos de futuro, carreira profissional. As situações da vida que confrontam nossos alicerces existenciais são de fato oportunidades extraordinárias para nos reinventarmos, tanto substituindo o que identificamos como inadequado, quanto no desenvolvimento do que identificamos frágil.
As tribulações produzem perseverança, isto é, nos fortalecem para enfrentar a vida. O ditado popular diz que “Deus dá o frio conforme o cobertor”. Acredito nisso. Acredito que o exercício de viver nos coloca diante de desafios proporcionais à maturidade. Uma é a dificuldade da criança, outra, do adolescente, e outra, dos adultos que já não acreditam em Papai Noel e já deixaram a prepotência juvenil de lado. As dificuldades que enfrentamos no caminho nos ajudam a encarar a vida e continuar andando rumo ao futuro desejado. À medida que vamos encarando e superando as tribulações, vamos perdendo o medo de cara feia, até que a vida mostra sua face mais terrível e se surpreende com nossa capacidade de superá-la.
Finalmente, as tribulações nos fazem pessoas maduras e íntegras, sem falta de nada. Atravessar tempos difíceis exige de nós a descoberta e o desenvolvimento de recursos interiores. As tribulações nos tiram todos os pontos externos de apoio: nos sentimos solitários, incompreendidos e injustiçados; perdemos posição, status e privilégios, além de dinheiro e conforto; e descobrimos que as bases onde escorávamos nossa identidade e as fontes de onde tirávamos forças para viver eram falsas ou insuficientes.
Nesse momento, olhamos para dentro e para o alto. E descobrimos uma fé mais amadurecida, que nos aproxima mais de Deus, e recebemos a coragem de continuar vivendo. Estranhamente, vamos percebendo que precisávamos de bem menos do que imaginávamos para a nossa felicidade, até que surpresos, nos deparamos com a sensação de que muito embora o mundo lá fora esteja em convulsão, o mundo de dentro do coração, está em paz e serenidade.
Quando chegamos nesse ponto de integridade (integralidade) é que passamos a desfrutar dos poucos recursos, dos amigos raros e das pequenas alegrias do dia-a-dia como suficientes para a felicidade. Aí sim, somos homens e mulheres de verdade. Construídos na forja das tribulações. Livres das ilusões. Prontos para viver, dar e construir.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Frustração: uma guerra interior (por Tais Machado)



por Tais Machado

Frustração é o estado que fico quando não tenho o que gostaria, quando me deparo com um obstáculo, externo ou interno, que me priva de satisfazer um desejo acalentado.
Frustro-me quando mergulho na ilusão, enganando-me com a expectativa, defraudando meus próprios castelos de areia.
Não gosto da frustração, pois ela me remete às falhas que nego ou tento esconder. Engasgo com o desgosto, ao ver que as coisas não saíram como eu pretendia, e o resultado é algo aquém dos meus sonhos, quase sempre infantis.
Lidar com a frustração é encarar uma guerra, de quem pretende ser onipotente, mas perde. Perder é amargar uma derrota do orgulho, é ferida narcísica, é manha de ser um ser mimado que não quer deixar esse lugar.
Pensar na frustração é ter que rever minhas idealizações. Trata-se de enfrentar o espinhoso trabalho de desidealizar, desmascarar a ingenuidade preguiçosa e covarde a que me apeguei, e ter que lidar com a realidade dura, por vezes cruel. Aí não há espaço para nutrir perfeccionismos doentios, alimentado pelo autoengano do “eu consigo”, “só os fracos desistem” torna-se o mantra da infeliz teimosia.
Apesar de eu evitar com toda minha força a colisão com o muro das ilusões, ela acontece, e aí sobram ruínas. E aí, tomo fôlego pra construir novos muros parecidos? Mais do mesmo?
“Pretensiosos e arrogantes vestem-se com os insultos da última moda. Mimados e fartos, enfeitam-se com as tiaras da tolice” (Sl 73.6-7 – A Mensagem). Quem sou eu de fato? Por detrás de dispositivos internalizados, disfarces e ataduras, o que sobra?
Desejo olhar, mas desejo também um olhar misericordioso. Quero a coragem de não fechar os olhos, mas também a audácia de não me acomodar na autocontemplação vaidosa. Que a compaixão e a sabedoria me guiem, afinal, como dizia Martin Buber, “existe uma autocontemplação estéril, que não leva a lugar nenhum, somente à tortura de si mesmo”.

Fonte: Blog Editora Mundo Cristão