O Professor Mário Sérgio Cortella é uma pessoa
fora-de-série, palestrante e escritor de primeira linha, e um ser humano simpático, boníssimo e que espalha para tudo em seu entorno alegria e otimismo, sabedoria e inteligencia. E
faz da filosofia algo prático e útil. A ele, fica aqui a
homenagem, e a vc, colega que me lê, a recomendação para que conheça seus artigos, livros e palestras. Se quiser dica por onde
começar, o livro "Não se desespere" é uma pérola.
Com abraço forte a todos,
William Douglas
A transcendência se mostra... Educamos nosso olhar?
Mario
Sergio Cortella*
Cidade de São Paulo, seis horas da
tarde, chovendo sem parar, Eu, ainda molhado pela chuva, dentro de um trem do
metrô lotado, indo para a universidade dar aulas (já entrando na terceira
jornada de um longo dia). Fome, vontade de tomar um banho, ficar em casa à
noite, descansar.
O
trem vai bem devagar (problemas na energização dos trilhos) e, a cada estação,
mais gente adentra, espremendo-se em pé, segurando sacolas, pastas, bolsas e
guarda-chuvas; janelas do vagão fechadas (por causa dos trechos ao ar livre do
trajeto); ar-condicionado desligado (para economizar eletricidade emergencial);
calor, abafamento, odores marcantes por todos os lados.
Meu
desejo? Sumir dali, sair de perto, desencostar de tantas pessoas, cheiros,
ruídos e suores. Paz, quero paz!
De repente, próximo à porta do vagão,
uma mulher com uma criancinha no colo, a pequena com a cabeça debruçada por
cima do ombro da provável mãe. A menininha
olha para mim e, sem razão maior, sorri.
Pronto. Durante segundos (mas sentidos
como uma deliciosa eternidade), desaparecem todos os transtornos à minha volta.
Não há mais chuva fora, não há mais pressa, não há mais cansaço, não há mais
nada, exceto uma sensação de encantamento e uma vontade imensa de retribuir o
sorriso. Eu o faço e, rápida, a criança simula esconder o rostinho com as mãos,
agora rindo.
O trem chega à estação na qual devo
descer; saio, reconfortado pelo alcance admirável e profundo de um sorriso
despretensioso e verdadeiro. Saio, sentindo-me abrigado pela experiência de um mistério que faz
cessar qualquer turbulência.
Que experiência foi essa? Durante o
caminho até a sala de aula, bastante
animado (cheio de anima/alma), procurei lembrar-me de outras experiências que
tivessem, para mim, o mesmo significado: o encontro (ainda que fugaz) com a
emoção simples, com a gratuidade amorosa, com o sentimento de proteção de minha existência, com a espantosa
beleza de algumas coisas e gestos.
Quando
pude, antes, viver a mesma experiência que a do sorriso infantil e desprendido?
Quando pude, antes, experimentar a calma certeza interior de que não estou
abandonado à minha própria sorte ou entregue à solidão de angústias sem
socorro? Quando pude, antes, provar do sabor da alegria compartilhada ou da
solidariedade sincera? Quando pude, antes, presenciar a formosura do mundo ou a
lindeza do que nele está?
Quando
pude? Muitas e muitas vezes; esse mistério se mostrou e se mostra a mim e a
todos e todas de inúmeras maneiras. Nem sempre o reconheci, nem sempre nele
prestei atenção; porém, sempre esteve presente.
Quando,
então?
Quando,
por exemplo:
·
da
primeira vez que fui ao mar, aos cinco anos de idade, e, olhando aquela
imensidão, segurei-me na mão de meu pai enquanto pequenas ondas quase me
tiravam do lugar (e eu, firmemente desafiante, não saía);
·
ainda
criança, voltava, saudoso, para o lar, depois de uma temporada de férias em
casa de parentes, e me regalava preguiçosamente na cama, aspirando os lençóis
em busca de um cheiro que só neles existia;
·
em noites
de frio na infância, minutos antes de dormir, percebia minha mãe, sorrateira,
puxar as cobertas por sobre o meu peito e, dar-me, de leve, um beijo na testa,
enquanto recitava baixinho uma oração da qual nunca me separei (“Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador,
se a Ti me confiou a Bondade Divina, guardai-me e protegei-me por todos os dias
de minha vida”);
·
nas
comemorações de aniversários, com irmãos, parentes e amigos em volta, eu
assoprava as velinhas (poucas, na época) e sentia um calor dentro do peito que
me dava a certeza de ser querido;
·
aos dez
anos de idade, fui, ao velório de um amiguinho que se afogara em uma represa e,
vi os pais dele sendo envolvidos por dezenas de abraços silenciosos e
apertados, lágrimas de adultos expressando uma dor que era de todos, marcando,
para mim, a noção de que se com a morte não nos conformamos, ao menos nos
confortamos;
·
nasceu meu
primeiro filho e, após o parto, sozinho no quarto da maternidade, chorei de
gratidão pela dádiva de poder, também, desdobrar minha vida (e não me satisfiz
com esse primeiro agradecimento, pois, outros partos ocorreram, outros choros
vieram);
·
ao
assistir, ouvir ou ler o noticiário, doem em mim as dores das guerras, das
fomes, das epidemias, dos desastres ecológicos, das violências físicas ou
simbólicas, e me esforço para não me acostumar, fraturando minha humanidade;
·
fico
extasiado no dia a dia, ao observar que a violeta que plantei renova-se
exuberante a cada regada, que os gatos de casa se enrolam nos meus pés quando
chego, que as brincadeiras familiares na hora da refeição vão amalgamando a
convivência (às vezes transtornada), que o passar das mãos de minha mulher
sobre meus cabelos (de forma sutil e cuidadosa) mostram a amorosidade de um
percurso parceiro;
·
ao ouvir
música (muitas vezes quieto, na penumbra), procuro fruir a imensa capacidade de
produzir emoção de um Mozart (como ele conseguiu, de forma contraditória,
alegrar minha vida com a Missa de Réquiem?) ou de um Catulo da Paixão Cearense
(“ontem ao luar, nós dois em plena
solidão, tu me perguntaste o que era a dor de uma paixão...”);
·
ao
participar de um culto, provo com outros e outras do extenso desejo que temos
de partilhar a vida, demonstrando nossos temores e reconhecimentos, buscando
continuamente a preservação generosa de um sentido de viver arrebatador e que
não queremos que cesse.
Escolhi
acima algumas situações especiais e marcantes para mim mesmo, mas, quem não as
têm ou terá, de alguma forma? Quem consegue não contar outras delas, inúmeras,
infindas, múltiplas? Alguém é capaz de passar incólume e afirmar que nunca foi
tocado por impressões desse tipo?
Todas
essas experiências antes relatadas são, acima de tudo, experiências religiosas. São vivências impregnadas (isto é,
grávidas) de religiosidade, pois todas apresentam faces de uma ligação com a
vida e sua sacralidade conjunta que transpõe a materialidade das coisas, a
provisoriedade dos acontecimentos humanos, a transitoriedade do tempo.
Todas
elas nos ligam e religam com a convicção de que o sentido (na dupla acepção de significado e direção) da existência excede os limites da mundidade e alcança a
humanidade para além das histórias individuais que a compõem. São, assim,
experiências da transcendência.
É
preciso educar nossa atenção aos conteúdos dessas experiências; é preciso
afinar nossos sentidos e sentimentos para não deixá-las passar como fatos
corriqueiros; é preciso perceber que, provavelmente, a transcendência está nos detalhes inesquecíveis, e, por isso, fundamentais.
É
necessário que os que lidamos com Educação possamos compartilhar esses detalhes com as crianças e jovens com os
quais trabalhamos, trazendo à tona as experiências (nossas e deles) que cada um e cada uma
carrega e que apontam para a percepção pessoal das memórias e vivências da transcendência.
É
imprescindível não recusar esse encontro com a admirável presença de um
mistério que ultrapassa a mim mesmo, minha
vida e este próprio mundo, mas do qual, surpreendentemente, percebo nele
e dele participar. E, mais ainda, sei e sinto não estar sozinho.
Afinal,
ser humano é ser junto.
* Mario Sergio Cortella, filósofo, é doutor
em Educação pela PUC-SP, na qual é professor do Departamento de Teologia e
Ciências da Religião e do Pós-Graduação em Educação (Currículo).
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