quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Sobre as pedras que me jogam


Rosi Fonseca acabou de me mandar a seguinte mensagem: "Dr. William Douglas, não permita que roubem o seu brilho e sua felicidade por mais esta conquista. Este livro, como os outros, será de grande utilidade para os que buscam o crescimento pessoal e profissional." Compartilho com os amigos a resposta que enviei a ela:
"Rosi, muito obrigado pelo carinho e pelas palavras reconfortantes. Agradeço muito. Quero tranquilizar você: estou acostumado a receber pedras. Sou cristão desde novo, e isto na época em que éramos vistos quase como uma seita, e muito discriminados. Já fui pobre, já morei no bairro pobre, sou do movimento negro, já era nerd desde uma época em que isso era motivo de chacota. Torço pelo Fluminense e atualmente não, mas isso já foi bem difícil, rs. Fui Delegado de Polícia e Defensor Público, e sou professor, três profissões honradas e maravilhosas que são pouco valorizadas (bem menos do que deveriam) e que nos permitem lidar com os maiores dramas humanos. Fui advogado, outra profissão criticada, mas sobre a qual se deposita a defesa dos direitos constitucionais sempre que violados. E sou magistrado, o cara que quando decide sempre desagrada alguém (quem perde, e às vezes até quem ganha! rs). Enfim, estou acostumado a receber críticas. Defendo minhas ideias, dou a cara a tapa pelo que acredito. Em um mundo onde as pessoas calam e se omitem, onde para serem promovidas, ou aceitas, eu não me disponho ao "politicamente correto" quando ele veicula a mediocridade ou a injustiça. Seja no concurso, seja na teologia, seja no cotidiano profissional, estou bem acostumado a ser atacado, mal interpretado etc. Até como pensador passo isso: criei a tese da legitima defesa antecipada, fui o primeiro a falar em Juizados Especiais na Justiça Federal... tudo isso objeto de críticas, algumas ácidas. Mas devo confessar: não saberia viver de outro modo, não saberia viver sem professar aquilo em que tenho fé. As pedras me darão, sempre, orgulho, se  eu as receber em meu corpo por um bom motivo. E, claro, como alguém que tenta seguir o Cristo, sempre que houver um apedrejamento, meu dever religioso (e, como cidadão, professor e juiz, também meu dever cívico) é o de que eu esteja do lado certo das pedras: nunca as jogando, se possível protegendo alguém de recebê-las e, se elas estiverem vindo em minha direção, que seja não por meus pecados, mas por condutas minhas que agradem ao Pai ou que tornem o mundo mais justo.
Nesse meio todo, em que tantas pedras existem e voam, também tenho recebido plumas, leves, macias, gentis. Você me jogou algumas. Obrigado. Isso mostra um pouco de sua pessoa. Só quem tem plumas na alma pode jogá-las ao mundo. Ninguém pode dar o que não tem. Que as plumas que você me jogou sejam suas também, que amaciem seu caminho nessa estrada ‒ chamada vida ‒ cheia de pedras, mas de flores também.
Inspirado pelas críticas e elogios, quero pontuar algumas coisas que me parecem relevantes. Em momento algum me acho perfeito ou tenho a ilusão de estar certo sempre. Contudo, certo ou errado, a forma como posso contribuir para a comunidade onde me insiro (esta aldeia chamada Terra), é compartilhar a minha verdade para que ela, somada às demais, em um debate civilizado e de boa-fé, possa produzir uma obra coletiva, uma verdade comum, negociada, democrática. E, noutro caso, quando se trata da verdade bíblica que professo, não irei negociá-la. Contudo, mesmo a verdade bíblica é misteriosa, é uma verdade cuja interpretação é vária e difícil, que precisa de conversa franca para ser compreendida. A verdade da fé não pode ser negociada, mas seu conteúdo só se alcança com estudo, livros, debates, e eu quero participar deles.
Amo o cristianismo, mas não me considero proprietário dele. Neste lugar, sou empregado, não dono ou supervisor. Acho que falta aos cristãos olharem mais para as traves em seus próprios olhos do que para os ciscos alheios. E sobre minhas traves, registro que não sou perfeito, mas posso dizer, como disse Martin Luther King Jr., “Não somos o que deveríamos ser, não somos o que queríamos ser, mas, graças a Deus, não somos mais o que éramos." O cristianismo não fez de mim, ainda, um bom cristão, mas fez de mim alguém muito menos ruim do que seria sem Cristo. Jesus poupou a mim e ao mundo de um William Douglas bem pior, acreditem. Tenho certeza de que as ideias bíblicas podem poupar todos de pessoas, empresas e práticas cotidianas bem ruins para quem as pratica e também ruins para a coletividade. Quem estudar a Bíblia, creia nela ou não como livro de fé, terá que – à luz do atual estado do conhecimento humano – reconhecer que as melhores e mais avançadas ideias de Administração, carreira e negócios já estavam escritas há 2.000 anos. O mais moderno do pensamento laico está apenas confirmando o que profetas da Palestina defendiam nos desertos e pastagens de Israel.
Há ainda mais uma coisa. Informo que não vou parar de defender nem as ideias, nem Cristo, nem o Judiciário, nem a lisura nos concursos, nem o serviço público, nem o magistério, nem a igualdade de oportunidades, nem a livre iniciativa, nem o Estado que não se omite, nem empresas éticas, nem coisa alguma daquelas que estou certo que irão melhorar o mundo. Não mesmo. Se alguém me convencer de que estou errado,  mudarei de lado, mas até lá, e depois disso, ainda repetirei as palavras de Luther King:
A covardia coloca a questão: é seguro? O comodismo coloca a questão: é popular? A etiqueta coloca a questão: é elegante? Mas a consciência coloca a questão: é correto? E chega uma altura em que temos que tomar uma posição que não é segura, não é elegante, não é popular, mas o temos de fazer porque a nossa consciência nos diz que é essa a atitude correta.”
Eis aí minha posição: seguirei minha consciência, e que venham as pedras.
Entre as coisas que minha consciência me obriga está ouvir a todos, sentar à mesa mesmo com os que parecem obtusos, mesmo com os que pensam de forma diametralmente oposta à minha, mesmo com os “pecadores”, e ouvi-los. Jesus foi criticado por comer com prostitutas e publicanos, e eu não sou melhor do que ele. Antes, tenho-o como modelo. Ele, por sinal, foi crucificado por aqueles que não entenderam o que ele veio dizer. Mataram-no, e também a Estevão, Pedro, Gandhi, Luther King, Malcolm X, William Tyndale, Jan Hus, Martin Niemöller, entre outros.
Enfim, meus heróis não morreram de overdose. Morreram porque suas ideias revolucionárias eram fortes demais para as pessoas que os rodeavam. Meus heróis foram a overdose, e das substâncias que eles traziam (traficavam talvez, vez que a liberdade sempre foi proibida, e pensar diferente também), me nutro e as injeto em meu sangue, todos os dias, a fim de viver no mundo de sonho e utopia que meus heróis engendraram. A mim, valeu muito a diferença que Cristo fez em minha vida, que Luther King fez na América, Gandhi, na Índia, Tyndale e Hus, na tradução da Bíblia, e assim por diante. Mandela, na África, e John Wesley, perante a escravidão e discriminação, também me valeram muito, e felizmente um está vivo e outro teve morte menos cruel. Quem mais eu poderia citar? William Wallace, por exemplo. Outro que mataram. A ignorância e a tirania vêm matando todos os meus heróis sistematicamente.
Sobre o tema, quero citar novamente Martin Niemöller, no célebre poema “E Não Sobrou Ninguém”, tratando sobre o significado do Nazismo na Alemanha: "Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse."
Por razões e lições como essas eu irei protestar quando quiserem, como querem, calar os juízes. Quando quiserem concursos de mentirinha, ou servidores públicos enfraquecidos; quando quiserem impor a todos a homofobia ou a teofobia; quando quiserem mudar o conceito de Estado Laico (pois laico não é o Estado que rejeita o sentimento religioso, é apenas o Estado que escolhe uma religião, seja ela a cristã, a islâmica ou o ateísmo. O Estado Laico não rejeita a fé, respeita-a). Vou protestar quando quiserem me impor a “teologia da prosperidade” ou a “teologia da miséria”, dois equívocos dos mais praticados nas igrejas cristãs, tanto católica quanto evangélica, de meu país. Não é o que está escrito na Bíblia, e irei tocar nesse assunto por mais que ele incomode a uns ou a outros.
O livro “As 25 leis bíblicas do sucesso” é atacado, mas representa uma profissão de fé no modelo bíblico de comportamento no trabalho e na empresa. Estamos, eu e Rubens Teixeira, trabalhando nele há anos e seu estudo de fundo contém mais de 1.000 citações bíblicas. Foi elogiado por teólogos de linhas as mais diversas e por empresários, inclusive alguns não religiosos, por professores e consultores empresariais. Não é um trabalho superficial. O título, o prefácio, a abordagem, tudo foi escolhido para realmente abordarmos temas pouco usuais. E se já não bastasse abordar tema sob ótica incomum, também foi escrito respeitando o leitor ateu e agnóstico, focando em temas de interesse geral (para teístas e ateus) sobre os quais a Bíblia tem algo a dizer. Nesse sentido, expressa o sal e a luz que temos que ser no mundo. E expressa leis inexoráveis que aproveitam a teístas e ateus, a hindus, cristãos e agnósticos. São princípios pouco estudados e eu e Rubens Teixeira nos propusemos, mesmo apesar dos riscos, a sistematizá-los.
Para quem é cristão, vale uma observação a mais. A ideia do livro não é a de que em uma semana se vá ganhar rios de dinheiro e que isso é a coisa mais importante do que Jesus Cristo. O escopo dele é mostrar que ensinamentos que estão na Bíblia, quando aplicados na vida profissional, são bons e muitas vezes nem percebemos isso. Muitas vezes passagens bíblicas como ser prestativo, p. ex., são lidas apenas em um contexto "espiritual" e aí (falando para os cristãos) a pessoa sai, vai evangelizar, ajuda nas tarefas da igreja, mas não percebe que um detalhe de prestatividade, uma gentileza a mais no trabalho pode render boas coisas, como o aumento de salário ou a projeção que a pessoa tanto deseja, ou coisas mais importantes ainda, como o exemplo e o “sal e luz” que os cristãos devem prezar. Como já foi dito, em frase ora imputada a Santo Agostinho, ora a São Francisco de Assis: “Evangelize sempre. Se precisar, use as palavras”. Seja pela evangelização, seja pela obediência, seja pelos resultados práticos, cabe ao cristão praticar o certo não apenas no espaço eclesiástico, mas no seu cotidiano. Isso, se ocorrer, será revolucionário e fará muito bem ao mundo.
Enfim, o livro traz algo muito bom, que é parar de separar "mundo espiritual" de "mundo secular" (coisa que muito cristão faz), de forma que é indicado inclusive para quem não é religioso, pois os princípios ali contidos são eficientes para toda e qualquer pessoa que deseja ter uma carreira ou empresa bem-sucedida. Quem discordar, pedimos que tenha a gentileza de dar uma lida no livro, nem que apenas em uma livraria, sem sequer precisar comprá-lo. Para criticar o que viu. Eu e Rubens estamos abertos às críticas sobre o que pensamos, não sobre o que pensam que pensamos.
Por falar em pensar, escrever é colocar o pensamento no papel. E quem pensa se arrisca, é assim que funciona. E se pensa e escreve, se arrisca mais ainda. Nós, por sinal, somos gratos a todos os que pensaram e disseram, ou escreveram, e até morreram por causa disso. Entretanto, só é livre quem pensa, pois, como ensinou Jesus, a verdade liberta. Eu e Rubens, não donos, mas servos da verdade, colocamos nossas ideias no papel. E, como disse um advogado na época da Revolução Francesa, “trazemos para a corte, numa bandeja, nossa cabeça e nossa verdade. Podereis dispor da primeira depois de ouvir a segunda.”
Espero que aqueles que pedem nossas cabeças se disponham a primeiro ouvir nossa verdade, assim como nós praticamos o princípio – dos Direitos Humanos antes mesmo que democrático e republicano – de ouvir a verdade alheia antes de criticar. Mas, se o fizerem, faz parte: a Humanidade já vem lidando com a crítica surda há milênios. Mas, se em um átimo de tolerância, em um átimo mesmo que de curiosidade, quem nos critica ler o livro e nos fizer alguma crítica centrada, inteligente, coerente, lógica, fundamentada, então ficaremos profundamente gratos. Queremos aprender mais e, apesar de não vir sendo comum ultimamente, estamos bastante abertos a ouvir quem pensa diferente de nós. E aos que nos elogiam e apoiam, mais uma vez nosso muito obrigado. São plumas que nos acalentam. A todos, nossa humilde verdade. Se quiserem discuti-la, obrigado, estamos certos de que aprenderemos alguma coisa. Como sempre, estarão ao dispor nossas cabeças, mesmo o corpo inteiro. Elas sempre entram em jogo quando o assunto é defender o que se pensa, ainda mais quando se pensa o diferente.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

CARTA ABERTA À PRESIDENTA DILMA – ENEM AOS DOMINGOS


Nós, representantes das comunidades brasileiras cristã e acadêmica, adiante assinados, secundados ainda por outros representantes do povo também subscritos que, embora professem crença diversa ou, até mesmo, não sejam filiados a qualquer religião, se sensibilizaram e ofereceram seu apoio,  vimos, respeitosamente, dirigir a V.Exa. o seguinte apelo:
A situação que desejamos seja solucionada é a dos candidatos pertencentes à comunidade judaica, que, por guardarem o sábado, não podem realizar a prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) antes do pôr do sol, atualmente sendo obrigados a aguardar no local e fazer a prova à noite, em situação extremamente penosa e, contudo, de facilíssima solução, que nenhum prejuízo ou inconveniente traria a quem quer que seja.
Apela-se à sensibilidade de V.Exa. para, tão e simplesmente, que sejam determinadas as providências cabíveis, no sentido de que a próxima edição do Enem e também as sucessivas sejam realizadas, como aliás o era até pouco tempo atrás, em dois domingos e não mais em um único fim de semana.
Seria uma solução muitíssimo menos gravosa, seguramente, do que constranger os que guardam o sábado a chegarem aos locais de prova junto com os demais inscritos e fazê-los esperar por horas, até o cair da noite, como hoje lamentavelmente se faz, para que, afinal, iniciem uma avaliação que, como se sabe, é complexa, extensa e, por que não dizer, também decisiva para a vida acadêmica e para a vida profissional dos milhares e milhares de brasileiros que buscam ascensão em todos os níveis. Além das horas de espera, após fazer as provas no período noturno, o intervalo para descanso até o dia seguinte, em que ocorrerá nova prova, é insuficiente.
Em situações mais gravosas para o país, como o serviço militar, por exemplo, a Constituição providencia solução alternativa. Aqui, por maior razão, deve existir sensibilidade, pois o que se almeja é tão somente que as provas voltem a ser, como antes, apenas aos domingos.
Apelamos ainda para a sensibilidade de V.Exa., não apenas como governante, mas também como mulher e mãe, a fim de resguardar os jovens, os quais merecem a oportunidade de competir em igualdade de condições, porém, a situação atual não assegura esse estado.
Entendemos desnecessário e gravoso, e completamente fora da cultura de paz, harmonia e tolerância que caracterizam o país, deixar mais de 30 mil jovens em situação altamente prejudicial a seu desempenho, com graves prejuízos ao processo de seleção para o ensino superior. Acreditamos que com boa vontade e sabedoria este assunto possa ser resolvido. Embora não acometidos diretamente pelo problema, buscamos V.Exa. munidos do espírito de fraternidade que une todos os brasileiros e que é, dentro de muitos, um dos maiores exemplos que nossa pátria oferece ao mundo.
Aproveitando o ensejo para manifestar a nossa mais alta estima e consideração por V.Exa., por seu compromisso com os valores democráticos e por sua história de luta pela liberdade, e pelos direitos humanos, e confiando ainda em sua sensibilidade, subscrevemo-nos.
Respeitosamente,

APEB – Associação dos Parlamentares Evangélicos do Brasil
CIMEP - Conselho Interdenominacional de Ministros Evangélicos do Brasil
CONCEPAB – Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil
EDUCAFRO /FAECIDH – Francisco de Assis Cidadania, Inclusão e Direitos Humanos
FENASP – Fórum Evangélico Nacional de Ação Social E Política
JURISTAS DE CRISTO – Associação de Juristas Evangélicos

Abner Ferreira – Pastor, Presidente da Convenção das Assembleias de Deus Ministério de Madureira/RJ
Antônio dos Santos – Deputado Estadual/SE e Presidente da APEB
David Santos – Padre Franciscano, Diretor Executivo da EDUCAFRO / FAECIDH
Fátima Pelaes – Deputada Federal/AP e Vice-presidente da Frente em Defesa da Família do Congresso Nacional
Fernanda Marinela – Prof. Direito Administrativo
Francisco Paixão – Pastor, Presidente da CONCEPAB
Henrique Afonso – Deputado Federal/AC
Ney Maranhão – Juiz do Trabalho/PA e Professor
Paulo Cremoneze – Advogado, Colaborador da Prelazia Pessoal do Papa e Cavaleiro da Ordem Equestre do Santo Sepulcro de Jerusalém
Roberto de Lucena – Deputado Federal/SP
Rodolfo Pamplona – Juiz do Trabalho/BA e Professor
Rogério Greco – Procurador de Justiça/MG e Professor
Rubens Teixeira – Professor e Pastor da Assembleia de Deus
Marcelo Crivella – Senador
Silas Câmara – Deputado Federal/AM
William Douglas – Juiz Federal/RJ e Professor
Wilton Acosta – Pastor, Presidente do FENASP

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Ainda a propósito da Fraude no Concurso da Receita


Caros amigos,
Recebi críticas e elogios pela minha manifestação anterior e creio que caiba algumas observações.
A primeira delas, é que minha manifestação foi – a pedido de várias pessoas – no calor dos fatos e, por causa disso, sujeita a emendas após o desenrolar dos fatos. Também não sou homem de, como fazem muitos, ficar esperando o que dirão para só então dar alguma palavra, ou mesmo calar, como fazem outros.  Sou formado na Infantaria, me perdoem, eu sou da linha de frente. Contem com minha opinião desde a primeira hora, não depois de a poeira baixar.
Felizmente, tive os que entenderam e concordaram com a lógica que eu defendi (e que não alterei). Dos que discordaram, vários o fizeram de forma gentil, amorosa mesmo, em atitude que calou bem fundo na minha alma de professor e concurseiro, qualidade que não perderei nunca. Obrigado aos que foram gentis comigo e compreenderam que estou defendendo a lisura, e, mais, que só pedi a anulação se tiver havido vazamento do gabarito, ou seja, se não for possível delimitar o dano.
Falarei sobre o “mérito” a seguir, mas me permitam mais um esclarecimento: temos um país com muita gente em cima do muro, e não sou homem de ficar nele. Acho que contribuo – como cidadão, antes de tudo - dando minha opinião. Assim é que já estive várias vezes no Congresso defendendo a lei dos concursos, já “dei a cara a tapa” centenas de vezes  etc. Meu interesse primordial é melhorar o serviço público. Logo, eventualmente poderei dizer coisas “contra” o interesse dos concurseiros, mas sempre em defesa da instituição, do serviço público e das pessoas que estudam. Todas elas, não apenas algumas. Respeito todos, respeito cada um, mas tenho que ser homem de posição, de princípios, tenho que ter coerência, pois ela é que nos ampara em um mundo tão louco. A lisura dos concursos é inegociável e beneficia a TODOS os que fazem por merecer. Por fim, aos que me ameaçam dizendo que “vou perder leitores”, informo que irei dizer o que penso, minha consciência não está a venda. Você pode até não concordar com o que penso, mas pode confiar que eu irei dizer minha verdade assim como cuido para ouvir as verdades diferentes da minha. Acho que desse embate, respeitoso e civilizado, é que construímos uma República e uma democracia.
Mais alguns pontos:
Consertando Erros
A primeira informação que recebi é a de que foi a inteligência da Receita que descobriu a fraude, depois me informaram que foram concurseiros que fizeram a denúncia.  Me avisaram de meu erro da seguinte forma “A denúncia de suposta fraude partiu de um usuário anônimo do Fórum Concurseiros, cujo endereço é:
Ali, encontram-se, até o momento, 96 páginas de opiniões, especulações e teorias, nada de oficial, ou seja, ainda não há notas divulgadas pelos órgãos de investigação ou pelas instituições envolvidas.”
Em suma, parabéns a quem denunciou e espero que a inteligência da Receita faça o que lhe compete. Que os culpados sejam identificados e que a punição seja exemplar.
Anulação é o caminho?
Se não se souber a extensão da fraude, penso que sim. Se houver como demarcar o dano, obviamente que não. Se houve vazamento de gabarito, lamento, mas a melhor solução é a anulação, pois não podemos correr o risco de haver corruptos tomando posse.
Todavia, em notícia que me alegra, e segundo uma das pessoas que me escreveram, “Na realidade, não se tem conhecimento sobre como se deu a operacionalização da possível fraude, se por meios tecnológicos (como, por exemplo, o uso de ponto eletrônico, caneta-espiã, óculos com câmera) ou outros meios. Hoje, sabe-se que a hipótese de vazamento de gabarito é a que merece menos aceitação entre todas, o que vem a corroborar a teoria de que a possível fraude tenha sido algo pontual e delimitado. Tentarei explicar de modo didático, compilando tudo o que li em fóruns, blogs e grupos. É fato que os quatro candidatos obtiveram pontuação mínima na disciplina de Administração Geral (nota 4, quarenta porcento do total de pontos daquela disciplina). Diante da possibilidade de anulações e alterações de gabaritos pela banca examinadora na fase de recursos, é difícil admitir o fato de que os possíveis fraudadores, de posse do gabarito, correriam o risco da eliminação no certame ao empenharem apenas o mínimo de acertos. Também, de posse do gabarito, acredita-se que os supostos fraudadores se dedicariam a obter a melhor colocação possível, a qual lhes eliminasse o risco de lotação em pontos fronteiriços do país (lugares inóspitos, que praticamente todos os candidatos temem e rejeitam), quando fossem convocados a optar pelo local de exercício de atividades.”
Se a fraude for pontual, ficarei felicíssimo, pois é terrível perder um concurso e o “justo pagar pelo pecador”, vez que existem muitos aprovados por conta do sacrifício pessoal empreendido.
Ruim para todos?
Torço para que a fraude seja limitada e não seja preciso a anulação. Mas, se ela for necessária, deixo uma explicação: se trinta pessoas receberam o gabarito, a anulação será péssima para o candidato honesto que “entrou” com justiça nas vagas, mas será nefasto para os trinta que teriam entrado se não fosse a fraude. Assim, quando um aprovado pensar que eu sou o “malvado”, ou isso ou aquilo, gostaria que pensasse o seguinte: eu estou defendendo TODOS os que estudam, em especial os que seriam eliminados por conta da fraude.  Sei que isso é duro para quem entrou honestamente, mas – se houve vazamento de gabarito - prefiro que TODOS os que estudam tenham uma nova chance. Quem estuda terá nova oportunidade e o serviço público estará protegido. Doloroso, mas dos males o menor. É minha opinião, e não irei mudá-la. Se você fosse o concurseiro sério do final da fila, eu estaria defendendo o seu direito de não ser roubado. Entendo a frustração de ver minha fala, mas por favor entenda: estou defendendo o grupo todo, qualquer que seja a classificação dos que sacrificam sua vida para chegar lá.
O que penso
Uma das pessoas que me escreveram disse, e assino embaixo: “Estou na lista dos aprovados na objetiva. Numa posição relativamente confortável. E o senhor me conhece, faço por merecer. E tem vários outros que, assim como eu, tbm estão nessa lista.. Candidatos honestos que há anos batalham por uma vitória. Candidatos que passam o dia inteiro estudando, que perdem vida social, ou só a tem virtualmente (facebook, rsrs), candidatos que deixaram os filhos de lado, ou empregos. Candidatos que sofrem um enorme preconceito por serem concurseiros. Candidatos que não tem apoio de ninguém. Candidatos que passam por dificuldade financeira para financiar seu objetivo de passar em um cargo bom, enfim, candidatos que não merecem passar por isso. A anulação do concurso,se essa fraude não for generalizada, não seria e não é a opção mais acertada, tampouco justa. O justo é uma investigação séria e minuciosa e a punição de TODOS os envolvidos. Hj é crime e cabe cadeia.. O que não dá é anular um concurso e deixar esses safados, bandidos sairem impunes e muitos honestos serem prejudicados por isso.. É lamentável viver em um país como esse. Na verdade é frustrante mesmo.. Só para desabafar, querido mestre!!”
Assino, repito: “A anulação do concurso, se essa fraude não for generalizada, não seria e não é a opção mais acertada, tampouco justa grande”. Grifo meu.  
Ainda outro, disse:
Não entrarei aqui na discussão, ecoando todas as suas vozes, sobre aquelas pessoas que abandonaram empregos, gastaram todas as economias, tiveram, por muitas vezes, de ausentar-se da função de pai, filho e esposo, locomoveram-se por longas distâncias para frequentar aulas e realizar as provas, etc. Pessoas estas que simplesmente não teriam condições pecuniárias, psicológicas e físicas para repetir toda a empreitada e, pior, certamente não conseguiriam reparação de danos por meio da lenta e falha justiça que impera nesta República. Pessoas estas que, não bastasse a tensa espera pelos resultados das provas e pela apuração formal e oficial dos fatos, ainda têm de se deparar com opiniões e pronunciamentos que, provedores de um clima de terrorismo, violentam-lhes a alma e a esperança de justiça.
Confirmando-se, por meio do trabalho das instituições competentes (nas quais devemos confiar), a tal fraude, não tenhamos dúvidas de que deva haver punição (e das mais severas), mas que esta seja aplicada apenas aos responsáveis e após o devido processo legal.
Também concordo (e vejam como redige bem esse candidato!). Mais uma vez, contudo, friso que precisamos definir a extensão da fraude.
A esse mesmo candidato, agradeço as palavras com as quais concluiu o email: “No mais, concordo com tudo o que disse. A intenção do seu texto, como sempre, é muito boa. Além disso, a essência do artigo faz-me identificar com tudo aquilo que o senhor vem pregando ao longo do tempo. Vejo nas suas publicações algo do bem e princípios comuns que também movem a minha vida. Mais uma vez, peço que não se chateie com meus dizeres. São apenas observações pontuais.
A ele, respondo: amigo, você não me chateou. Você me alegrou, honrou, ajudou e, creia, tenho muito orgulho e gratidão por sua postura e por saber que, com anulação ou não, em breve – no tempo certo, após as agruras todas – serei colega de uma pessoa como você no serviço público. De você e da moça que também citei, antes.
Conclusão
Tenham certeza que estou tão frustrado quanto vocês. E que sei o que os que estudam passam, pois sou um deles e convivo diariamente com quem o faz. Peço que entendam minha posição antes de saírem me acusando disso ou daquilo. Quero lembrar que eu não pratiquei a fraude, apenas não quero que ela, se for generalizada, prejudique as pessoas que fazem por merecer. Igualmente, não quero ver mais corruptos entrando. O movimento tem que ser de saída, não de entrada. Como todos, torço para que a investigação mostre que a fraude foi pontual e, assim, não seja necessária a anulação.
Contudo, em qualquer caso, concito os concurseiros, os que fazem por merecer, a vencer a natural frustração e a continuar a caminhada. Já vi isso antes, muitas vezes: quem não pára, e persiste, terá seu lugar garantido. Essas coisas atrapalham, atrasam até, mas não têm o poder de impedir sua nomeação e posse. Continue na jornada e venha ajudar a limpar a casa. Só você, que estuda, pode ajudar a fazer essa faxina. Que a justa ira pela bandalheira faça de você um servidor ainda mais comprometido com um serviço público sério, digno e eficiente.

Fraude no concurso da Receita Federal


É profundamente frustrante, ainda mais quando se trata de instituição respeitadíssima, tomar conhecimento de que ao menos quatro pessoas conseguiram o gabarito da prova para analista da Receita Federal. Tais fraudes ofendem quem se sacrifica e estuda, quem precisa dos serviços públicos e toda a sociedade. Claro que esses problemas só ocorrem porque já acabamos com o compadrio e indicações políticas, salvo nas funções comissionadas. Prefiro enfrentar esses problemas do que termos um país sem concursos. Em paralelo aos fatos, fico feliz pelo trabalho da inteligência da Receita, que conseguiu descobrir os quatro vermes (palavra forte, mas qual o nome que se dá a quem se alimenta não do próprio trabalho ou estudo, mas do sangue dos outros?). Espero que a investigação não pare neles e que a punição seja para lá de exemplar. Não podemos ficar acomodados em pegar só esses quatro meliantes.
O fato é que, se já não bastasse a frustração de todos, há que se dar uma solução adequada ao seriíssimo problema. Alguns advogam manter o concurso para evitar prejuízo a terceiros de boa-fé, ou por razões de economia etc., ao passo que outros, como eu, entendem que o concurso deva ser anulado. Eventualmente, como ocorreu em ENEM recente, onde a fraude se circunscreveu a um único colégio onde os professores (vergonha dupla, partir isso deles) passaram os gabaritos para os alunos no afã de ter bons resultados e, ao invés de educar, deseducando. Mas este não é o caso do concurso da receita em questão: quando não se sabe a extensão da fraude, por mais doloroso que seja, e por maiores que sejam os custos, não existe custo maior do que permitir que bandidos e vagabundos, os corruptos, assumam cargos públicos. O dano é imensurável, inaceitável e não há espaço para negociação com os princípios da legalidade, moralidade e tantos outros afetados.
Se alguém já entra pela via da corrupção, seja ela a do dinheiro ou a do vazamento de informações, tal pessoa é um corrupto pronto, que usará todo o poder público que tiver para fazer o mal, desviar, extorquir e fazer tudo o mais do que nós, brasileiros, estamos fartos. Um servidor corrupto é mais um mensaleiro que teremos que aturar. Não dá para contemporizar com isso.
É preciso que a instituição que realiza o concurso reveja todo o seu sistema de segurança para evitar que a tragédia moral se repita, que se identifique a quadrilha e, mais que tudo, que não corramos o risco de darmos posse a outros pilantras. O momento do país é de limpeza, não de pusilanimidade.
Quem está estudando sofre com isso tudo, mas a nova prova irá dar a oportunidade de não ser roubado, fraudado, iludido pela justa expectativa de seriedade nos certames e, até mesmo, consolo pouco mas a ser registrado, mais tempo para estudar. A anulação irá dar exemplo e notícia de que não haverá tolerância diante desse tipo de crime, e a oportunidade para que a instituição que realiza o concurso mostre mais eficiência, outro princípio da República.
À inteligência da Receita, à Polícia e ao Ministério Público, meus votos de sucesso na persecução. Aos meus colegas juízes, a minha expectativa – como cidadão – de rigor com quem mancha o nome do serviço público e afeta nossa credibilidade como país. Aos que estudam, o consolo de que está havendo fiscalização, a qual, embora não tenha evitado a fraude, ao menos a descobriu. A quem decide se anula ou não esse certame, a esperança de que decida pelo caminho mais doloroso, mas o único que enfrenta essa infecção com a dureza necessária. E, ainda a quem estuda, mais dois pedidos: primeiro, não desistam, mantenham a certeza – que eu compartilho - de que nenhuma fraude impede a posse de quem está realmente preparado; e, segundo, meu desejo de que venha para o serviço público com a “ira santa” de quem não vai participar, nem aceitar, nem tergiversar quando o assunto for combater a corrupção, em qualquer de suas manifestações.
Vamos limpar a casa, custe o que custar.