quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Mula


William Douglas,
11/11/07, domingo à tarde, Taquaral.

Depois de pegar a preá pequena nas mãos, minha filha e meu pai partem para alguma nova aventura. Antes, já tinham circulado pelo Sítio, o avô puxando a égua, sobre ela a "patroinha" e seguindo o cortejo "sharpay", a potrinha de poucos dias de vida, marrom, com uma estrela branca na testa, como se soubesse de onde veio seu nome. Deito-me.
A luz apagada e o cheiro das coisas me remete à casa do avô, distante trezentos metros no espaço e trinta anos no tempo. O cheiro é o mesmo, exatamente o mesmo. Eu poderia ouvir meu avô andar pela casa, quase me levanto para furtar mais doce de leite da Maria Luiza, mãe de meu pai. Mas "não", me contento em, já não tão desatento, acender a luz e pegar uma caneta para contar o que vejo, sinto, ouço, nem sei. O único caderno disponível é de 1993, com a assinatura de minha mãe, e de novo viajo no tempo. Escolho uma folha como quem profana o sagrado: o caderno da mãe já morta. No caderno, contudo, ela vive. Fico confuso, mas escrevo.
Minha filha vai na sela como uma princesa, eu sequer tive um cavalo. A egüinha neonata é dela, que negociou há poucas semanas com o avô esse delicado assunto. Dona do "Pepetinha", a última cria da égua, queria também o novo filhote. Eu, sabido, quis que ela abrisse mão do antigo, ela resistiu mas cedeu, tendo a idéia de dá-lo para o irmão e a dúvida algoz se nesse trato se meteria o avô, afinal. O avô aceita, o "Pepetinha" fica pro Lucas e ela com a cria que viria. Se macho, "Troy", se fêmea, "Gabriela". Mas desde então a Sharpay parece ter feito qualquer coisa no High School Musical e tomou a frente. Luísa deu uns pulinhos ao saber que a cria era menina e, pronto, "sharpay" é como se chama. Eu estou no ar condicionado. A menina já está com o repelente de insetos, sim, o progresso passou pelo Sítio. Mas, d´alguma forma, os meus avós rondam pela casa. O ar condicionado só está aqui como prova do tempo que passa, mas posso ver o menino loirinho rodando pelos riachinhos, pescando. E por ele cruza a loirinha, majestática. Num átimo, eu menino e minha filha brincamos perto, quase juntos, transtornando o tempo, a lógica e a cronologia.
Não saio do quarto: temo me reencontrar menino. Ouço minha mãe chamar qualquer coisa e é como se ela e Luísa finalmente se vissem. Não saio do quarto: temo mexer naquilo que não entendo.
Eu já contei antes, no livro: meu avô não sabia pronunciar o nome do neto. Era algo parecido com "Dôguis" o que ele falava para dizer o nome de avião que ao neto deu seu filho sonhador, o menino do engenho, também arteiro, que queria voar, que saiu do meio do mato para ser professor, para estudar na Europa.
Sim, Izequias já velho, 68, aceitou de bom grado (e mesmo adivinhou) a intenção da neta: poupou-lhe no acanhamento e recebeu "Pepetinha" de volta, cedendo-lhe o potro por nascer, na já narrada negociação de poucas semanas atrás. Hoje, então, Luísa veio conhecer sua potrinha, cujo sexo ainda não sabia. Ela disse para o avô, três ou quatro vezes, o nome da égüinha: "Sharpay". Desde a primeira o avô alertou que era nome difícil... e lá pela quinta eu tive que ralhar com a menina : "Filha, fale direito com seu avô!" Ela tinha se exasperado, reclamando de ele não conseguir falar o nome de seu presente.
Hoje, céu cinzento, o tempo se perverte: o meu avô não sabia falar meu nome, o avô de minha filha não repete o nome da égua. As gerações, os tempos, os acasos, tudo se encontra. Apenas o ar condicionado me prende à lógica do tempo, do progresso e da morte.
A foto digital que tirei de minha tia, Lídia, 73, há pouco, também diz alguma coisa. Ela tem aquela dignidade estranha, singular, quase incompreensível dos homens do campo. Eles têm uma altivez serena, um olhar profundo, uma realeza que não advém de posses ou riquezas materiais (que sequer têm). Essa postura deve vir do campo, de fazer brotar a alface, a couve e a chicória, de ver nascerem os bichos, de interagir à noite com as estrelas, de comer galinha sem hormônio, leite sem acetona, berílio ou tungstênio.
A filha ralha com o avô, e eu intervenho. Ah, se ela soubesse que eu não tive isso! O avô, o meu, já disse antes: éramos de mundos tão diferentes! Ele sequer sabia falar meu nome. Eu tinha medo dos grilos, ele dos sons da cidade, e talvez da luz lancinante dos postes com faróis de mercúrio. De repente, meu pai Doutor na Espanha, o aviador, titular em tudo, não pronuncia direito o nome do cavalo (egüinha) que deu pra neta.
Me assusto: o mundo deles deve ser também tão distante... E longínquos assim, na vez passada tomaram banho de lama. Fotografei-os como se filma quando o homem pousa na Lua. Fico assustado, sim, sharpay, sharpay. Que mundos distantes!
E, num milagre esplendoroso, eles caminham juntos, riem, colhem flores, olham cobras e caçam preás assustadas. Quantos mundos distantes pousaram no Sítio esta tarde! Eu queria dormir, apenas.
Mas o cheiro de tudo me sobressalta: a cama e a pele de meu pai cheiram a meu avô em minhas memórias enevoadas, e não tenho acesso ao doce de leite, ao doce de leite de minha avó, Luiza, nem ao som terno ou ao afeto abraço de minha mãe. Em breve, meu pai e a neta pularão na piscina que eu não tive. Houve progresso, prosperidade, criada por Deus e pelo pai, que saiu dali para ganhar o mundo, aviador, o sonhador que não fala "sharpay".
Um cão late, logo, não posso estar dormindo. Mas não faz sentido: vejo-me menino brincando com uma menininha loira, arteira, que anda pelo Sítio com ares de dona. "Patroinha", é como lhe chamam os caseiros. Eu continuo à procura de barrigudinhos, peneira na mão e cabeça nas estrelas. A idéia é ser astronauta, daqui a algum tempo.
O que essa menina tem que gosta tanto de ser dona e de andar a cavalo? Meu irmão menino cruza por mim em busca de gaviões, minha mãe chama para a refeição... não faz sentido, são quatro da tarde, a mãe está morta, o tempo está louco, o avô – de facão na cinta – cruza os umbrais da porta (sempre procuro em sua algibeira seu relógio de bolso, sempre). A avó e o doce de leite, não acho. Nem mesmo o cheiro. Enquanto escrevo, a filha entra no quarto suada, querendo saber da roupa de banho. Pega a chave do carro e some apressada. Me critica por não ir para a piscina. É, já não sei se durmo ou acordo.
Os avôs têm dificuldade com os nomes, é certo. Mas o avô de minha filha brinca com ela, e já lhe deu um cavalo, depois uma potrinha, e toma banho de lama. A figura de meu pai novamente me desafia: que tipo de avô eu serei para meus netos? Não bastassem seus feitos profissionais quase miraculosos, agora não mostra qualquer pejo ou constrangimento em misturar-se à lama como faziam os porcos de que cuidou para poder estudar o segundo grau. Não se percebe nele qualquer vacilação para puxar o cabresto da mula. A menina não sabe, mas seu dedicado pajem tem Doutorado em Educação na Espanha. E quanto ao cabresto, sabe puxá-lo desde menino, quando no lombo da mula levava banana e aipim, melado, batatas. A única coisa perene é a mula. Sim, a mula é que não muda. O homem à frente do cabresto construíu-se, a carga no lombo da mula não é mais o fruto da terra, mas o fruto do ventre projetado no etéreo. Não é mais a herança da terra, mas a dos próprios lombos do lavrador que queria ser doutor, estudar, fazer-se grande e fez-se. Eu fico no ar condicionado, preciso dormir, é claro. Enfim, lembro de meu pai, anos atrás, sempre dormindo nas tardes de domingo. Enquanto isso, meu eu menino e minha filha correm pra piscina. O avô presente vai junto deles. O menino loirinho se assusta: "Como é que construíram aqui, tão rápido, uma piscina?" Ouço uma voz alegre a berrar pela menina. "Que avô arrumou essa loirinha?", penso não sei se "eu" ou meu "eu menino". Avô moleque, aviador, maluco. Eu serei astronauta, um dia.
E, talvez daqui a trinta anos, uma mulher loira e muito interessante aterrisse no Sítio algum veículo voador do último tipo. Dele descerão meninos e meninas, e meu eu idoso quererá segui-los pelo meio do mato ou do que tivermos construído ali perto. Minha neta ou neto terão nomes ou coisas cuja tormentosa pronúncia me fará voltar no tempo.
Sentarei, sereno, na roda dos homens velhos. Serei um sábio. Olharei meu avô e meu pai e serei um deles, e terei no semblante a dignidade estranha dos homens do campo. Tomaremos café. Minha avó e minha mãe trarão doce de leite e um bolo. Enquanto isso, meu pai menino, meu eu loirinho e Luísa, a menina, e o Lucas, correrão pelo lugar em companhia das crianças que trará o tempo. O mesmo tempo que me fará perder o medo da lama, como não tinha antes. As mesmas crianças que sentarão um dia na roda dos velhos, comigo, com meu pai e meu avô sereno. Seus "eus" adultos.
Naquele tempo, como outrora, os meninos e as meninas, no quintal, no mato, na água, estarão brincando.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Palestra Gratuita! Divulgue e participe!


COMO PASSAR EM PROVAS E CONCURSOS
com William Douglas

26/01/2010 (Terça-feira) - 12:30h

Local:
Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL)
R. Gal. Andrade Neves, 31 – Centro – Niterói /RJ
(próximo ao Plaza Shopping)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O quanto de Boris existe em você?

Após ouvir lixeiros desejarem “feliz 2010”, Boris Casoy disse “... que m----, dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras... (risos) ... dois lixeiros... o mais baixo da escala do trabalho.” O episódio chocou. As reações que está sofrendo são exageradas? Ou ele as merece? Os lixeiros desejaram a todos (inclusive a ele, portanto) “paz, saúde, dinheiro, trabalho” e o que se seguiu foi, usando sua terminologia, “uma vergonha”.
O pedido de desculpas, protocolar, não teve eficácia, talvez até o contrário. A oposição entre a imagem do apresentador e o comentário em off, revelador de uma visão elitista e preconceituosa, frustrou a ideia de respeito a todos e ao telespectador (imaginem o filho de um gari ouvindo isso). A rudeza dos comentários não se resolve por ter sido um acidente e não é fácil pedir desculpas pelo que se é ou pensa. Contudo, até que ponto a diferença entre nós e o Boris reside apenas no azar que ele deu pelo vazamento? O quanto de Boris existe em cada brasileiro?
Quando alguém se refere ao ponto “mais baixo na escala do trabalho” pode estar se referindo ao conteúdo moral ou social da atividade (como, por exemplo, criticar o tráfico ou a agiotagem), pelos riscos ou pela remuneração reduzida. A atividade de lixeiro não é nociva à sociedade. Nocivo seria, para a saúde e meio ambiente, que eles não atuassem. Como o risco não é tão grande, por eliminação, resta a remuneração. E aí reside um preconceito que resiste: julgar a dignidade das pessoas, ou das profissões, de acordo com sua remuneração. Há que se reconhecer que nem sempre existe equilíbrio entre a importância social de uma função e os ganhos que esta proporciona. E não se pode confundir o desejo de melhorar de vida ou ganhar mais, e a admiração por quem logra isto, com uma postura de menoscabo com as funções menos rentáveis.
Todo trabalho é digno. O que existe, em cada ofício, são pessoas que agem bem e outras não. Existem servidores públicos, CEO’s, lixeiros, jornalistas e juízes dignos e indignos, o que se define pela forma como exercem sua atividade. Mais que isso, Jesus dizia que “a vida do homem não consiste na abundancia dos bens que possui”.
Se você, leitor, julga alguém melhor ou pior levando em consideração o quanto a pessoa ganha, ou como se veste, ou onde mora, é preciso reconhecer que em você há, escondido, um pouco desse lado sombrio que o Boris revelou ter. Talvez o lado positivo desse episódio seja a reflexão sobre até que ponto ele não revela nossos preconceitos em off.
Camila Pitanga, que faz o papel de uma faxineira na novela global, afirmou que anda pelo estúdio sem ser cumprimentada quando está com os trajes da personagem. Feliz pelo papel ser convincente, não deixou de anotar como é estranho ficar “invisível”, Esse fenômeno já foi objeto de estudo por um professor da USP que, vestido de faxineiro, ficou “invisível” na universidade, por anos. Em suma, quem deixa de ver o faxineiro, não deixa de ter seu lado Boris. Não que o Boris seja de todo mal, ele não é. Ninguém é. Somos todos humanos, com nossos lados luminosos e sombrios.
Boris também errou ao analisar a função de lixeiro. Os "'garis" são figuras simpáticas à população, vivem de bom humor e, ao lado dos carteiros, têm índices de aprovação e confiança que fazem corar os Poderes, a igreja e a imprensa. Infelizmente, estas instituições não são eficientes para limpar seus respectivos “lixos” como os garis o são com o lixo que lhes cabe. Por fim, não esquecer que – com seu jeito e ginga – um gari ilustra o vídeo institucional da bem sucedida campanha “Rio 2016”. No Rio, os concursos para gari são concorridíssimos.
Certa vez, fui a uma festa na casa de um Procurador do Ministério Público do Trabalho (negro e onde grande número de convidados eram afrodescendentes). Fui com meus dois filhos e a babá do mais novo. Ela, negra, não está acostumada a ir a festas com tantas pessoas da sua cor. Em restaurantes e colégios caros, só para dar dois exemplos, é raro encontrar pessoas negras. Depois da festa, perguntei à babá o que ela achou e sua resposta foi: “Achei muito diferente, Dr. William. As pessoas olhavam para mim!”. De fato, quem reparar vai ver quantos ignoram os trabalhadores mais humildes, quando não chegam a destratá-los. Naquele ambiente raro, a jovem experimentou a “não invisibilidade”.
E você, leitor? Cumprimenta seu lixeiro? O garçom? A babá da vizinha? O porteiro? Você os vê? Aquele áudio procura você. Se você se julga, ou julga os outros, por quanto ganha, por qual carro tem, ou se não tem um, então o episódio pode revelar esse lado do Boris em seu cotidiano. Melhor que apenas discutir o que fez o Casoy é também questionarmos até que ponto reconhecemos o valor de todo e qualquer trabalho honesto.