A
pior frieza não é quieta, mas a explicada. Não é não ter cobertores para o
frio, mas vê-los dobrados enquanto você treme na calada da noite. Aprendi a
apreciar a frieza assumida, o ódio revelado, a inconsistência explicitada na
voz e nos gestos. O que dói mesmo é a frieza com argumentos, aquela que além de
deixar você ao relento ainda espera de sua pessoa compreensão e nobreza. É como
deixar alguém com fome e dizer que esta fome é justa, que ela se prova por “a”
+ “b”. Você sente vergonha de ter fome. Isso enquanto seu estômago ronca.
A
pior solidão é a justificada, onde o outro delicadamente desenha um plano
cartesiano ilustrado com diagramas e ornado de pesquisas mostrando que a reta
tal não encontra o eixo por uma razão e que tudo deve ser assim. E promete que
esta sua solidão é meramente temporária, que o frio um dia passa, que a fome
será saciada, e que no final – e isso não se diz, apenas se insinua – você é
que tem pressa, e frio a destempo, e fome demais. E você morre de qualquer
coisa em um oásis pronto que se apresenta como por inaugurar em breve.
Você
continua com frio, e fome, e solitário, e tudo isso olhando colchões e
cobertores térmicos, e uma mesa completa e farta que alimentaria o mundo, e
fica com sede dentro de um aquário sem água posto no meio de um oceano.
Um
dia você acorda e descobre que é dono de um oásis gentil que não explora. Você
é a criança triste que recebe um brinquedo que não pode sair da caixa.
Por
isso tenho certa simpatia pelo ódio revelado. Este lhe permite a luta, a fuga,
ou no pior dos casos uma derrota nobre. Se há falta de cobertas, pode se seguir
em sua alma uma resignação, a resignação dos pobres, mas como enfrentar o frio
diante de um aquecedor que se teima, que alguém teima, deixar no “off”? E então
vive-se de migalhas e misérias, de paninhos que não cobrem todo seu corpo, e
você sente raiva de si mesmo por ser grande e sentir frio.
Por
isso gosto das pessoas que não me amam, pelas que são corajosas de interpor sua
frieza sem argumentos, que se puderem me deixarão passar frio. Um frio sincero,
um frio inevitável, um frio assim eu enfrento sorrindo. Mas nada pior que
o frio explicado, ao lado de uma montanha de cobertas. E eu me pergunto se
quando amo, alimento, aqueço, abraço. Porque qualquer amor que não aqueça não é
melhor que o ódio.
Um comentário:
Lindo texto Dr Douglas. Obrigada por compartilhar conosco. Seu texto muito nos leva a refletir sobre uma diversidade de comportamentos nítidos que infeliz mente muitas vezes se reconfirmam até onde tínhamos esperança de que não tornariam a repetir de uma forma tão fria e calculista por parte de pessoas até muitas vezes com bastante acesso a nobres conhecimentos há anos; mas mesmo assim insistem com tais atitudes. E podemos identificar muitos outros, por suas atitudes, respostas e transparência sincera, com ternura, pureza e muitas vezes quando nos falam claramente o que precisamos ouvir.
Enquanto muitos fingem algo apenas por interesses e quando por algum motivo não podes retribuir da forma como desejam lhe viram com crueldade e grande frieza. Pois quando esta face mundana se comporta de forma mercenária, sob diferentes facetas, até se vulgarizam.
E diante de tais constatações jamais podemos dar força para tais comportamentos de insensatez e deslealdade depois de tantas chances de mudança, pois se assim continuarmos persistindo e achando que um dia mudará, simplesmente estaremos sendo bobos e juntamente dando espaço para uma submissão desvairada de falta de amor próprio e revalidando espaços para tais condutas, a ponto de se tornarem banais até para com outros.
Por isso o afastamento nestas horas eu reconheço que deve ser a primeira alternativa, antes que seja tragado pela maldade e falsidade emplacada de ilusão exposta ao ridículo.
Desculpe, tantas palavras neste teor, mas é assim que muitos alimentam tais comportamentos e vão enganando muitos e ainda assim, alguns destes são aplaudidos... Continuando perpetuando mentiras sobre nosso próximo e tudo ou todo aquele que achar, que de alguma forma por si mesmo, aciona a sua própria insegurança. Sendo que esta é acionada por pura falta de intimidade com Deus... E assim sobre diferentes nuances, vai bailando, bailando em tais atitudes comportamentais. E escolhendo cada uma das vítimas para tragar com estes vícios que fazem muitos se afastar ou nem perto desejar chegar.
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