Não
se engane com meu jeito educado e gentil.
Nem
sempre fui assim. Eu já matei um homem.
Cristo
morreu pelos meus pecados.
Aliás,
pelos nossos. E eu não desperdicei aquele sacrifício:
ao
menos por mim, aquele sangue não foi em vão.
Nunca
entendi a maior parte das coisas sobre Ele, mas sei que
sua
vinda mudou minha história.
O
cristianismo, por culpa minha, ainda não fez de mim um bom cristão,
mas
já me tornou muito menos ruim do que eu seria sem ele.
Este
homem disse que minha vida é mais do que meus bens,
que
qualquer flor se veste melhor do que com Gucci ou Gabbana,
Versace
ou Dior. Qualquer lírio do campo está na moda, sempre.
E
sussurou que não adianta ganhar o mundo inteiro e perder a alma.
Este
homem, que eu mesmo matei com meus pecados, e diz que
amar
me torna invencível; servir, grande;
ser
fraco me torna forte; dizer “não”, íntegro.
Esse
homem que aceita adoração e lava os pés dos outros me enlouquece:
ele
diz que quando julgo, me julgo antes, que ao perdoar também antes me perdoo,
me
fala para oferecer a outra face a quem me fere, e a andar a milha extra.
E
me diz que está sempre à porta, batendo, para me convidar para jantar.
Nunca
vou entender esse Deus que se mata, ou, como disse Calvino,
que
“se tornou filho dos homens para os homens se tornarem filhos de Deus”.
Eu
nunca vou entender esse homem que diz para eu me negar a mim mesmo e tomar uma
cruz, justo ele, que em um mundo de hipocrisias primeiro me tomou a minha.
Receio
que nunca irei entender quase nada, mas sei duas coisas:
sei
que ele me amava antes de eu me tornar visível para os outros, e que matei esse
homem.
William Douglas, 25.11.13, 10h. Niterói, dia com chuva.
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