quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Continuando o Debate - Cotas nos Concursos


Continuando o diálogo com leitores, segue mais uma mensagem recebida sobre o tema Cotas nos Concursos:

 Olá William, 
Li seus artigos a esse respeito e fiquei surpreso positivamente com sua sensibilidade e desprendimento ao tratar do assunto, além da sua formação como pessoa, creio que esta seja uma das características estimuladas entre os magistrados, desde já lhe parabenizo. 
De qualquer forma gostaria de colocar um ponto, o senhor se diz favorável em certa medida as cotas sociais e raciais para o ensino superior, e contrário a essas mesmas cotas aos concursos públicos, porém analisando o cenário desigual de representatividade dos negros desde o ensino superior, é natural que essa desigualdade se manifeste também nos candidatos e aprovados negros nos diversos concursos públicos, ou seja, um encadeamento de desigualdade que se reflete no mercado de trabalho público (e privado também), gerando evidentemente muitos prejuízos.  
É evidente o predomínio absoluto de indivíduos brancos nos cargos mais altos (e também entre outros cargos) da administração pública, o que levou a presidenta Dilma, estimulada pelo movimento negro, a assinar um (decreto?) que destina 20% da vagas nos concursos públicos no executivo federal para negros. Eu particularmente vejo as cotas para os concursos como uma medida paliativa para aumentar a representatividade do negro nesse setor, visto que existe uma desigualdade que é marcante desde o ensino superior, o que acaba levando uma não visualização do negro como agente contribuinte, importante nas decisões dos órgãos públicos nacionais, sempre limitado a cargos subordinados, subalternos, e sempre em menor proporção.
Compreendo que a questão do mérito é fundamental, mas o mérito do negro não fica sufocado num sistema desigual de representatividade? oriundo de um sistema tão desigual quanto (ensino superior)? Acredito que se aplicado de uma forma consciente e criteriosa, é sim benéfico no que diz respeito a representatividade dos negros em diversas localidades da administração pública federal pelo país. 
Obrigado,
Y


Caro “Y”,
Obrigado por seu e-mail, argumentos e gentileza.
Todos queremos acabar com a injustiça racial em nosso país, estou certo que a grande e esmagadora maioria está de boa fé apesar de caminharem por métodos diferentes. Você já sabe que sou a favor das cotas nas universidades, estágios e bolsas, pois com isso aceleramos o processo de enfrentar a desigualdade. No caso dos concursos, como não é para estudar, mas para tomar posse, creio que o remédio se torna exagerado.
Concordo com você quando diz que: “o mérito do negro fica sufocado num sistema desigual de representatividade". Você tem razão. Porém, se dermos a vaga para um negro por essa condição amanhã, imagine, teremos alguém querendo ser julgado por um juiz não cotista porque "é mais competente que um cotista". Para assumir vaga no cargo público precisamos preparar os negros, assim como qualquer pessoa pobre, para disputar a vaga e vencer "em campo".
A solução real virá com mudanças estruturais, mas eu e você, e muitos, não estão dispostos a esperar por isso: vamos acelerar o processo. Porém, creio que por mais que haja bons argumentos para a cota nos concursos, os ônus e danos colaterais das mesmas são maiores que as vantagens que oferece (e concordo que oferece algumas).
As cotas só fazem sentido no serviço público em casos muito peculiares, como o do Itamaraty, pois precisamos de diplomatas negros. Mesmo assim, há pilantras burlando o sistema. Precisamos tirar os oportunistas desse campo.
Espero que você tenha lido os dois artigos que escrevi, um a favor das cotas para estudar e outro contra as cotas nos concursos.
Se fosse para ter a cota, ela também deveria ser em percentual menor, diminuindo a rejeição à medida. De qualquer forma, creio que o governo deve criar políticas para auxiliar negros e pobres a estudarem e a competirem.
O governo iria melhor dando bolsas para pobres estudarem. No caso dos negros, como têm percentual maior nas classes mais baixas (frente à media de toda a população) as cotas sociais iriam beneficiar mais negros ainda. Infelizmente alguns ativistas do movimento negro preferem defender a bandeira mais bonita (cota para negros) ao invés de defender a mais produtiva e benéfica para o povo negro. Eu, como não tenho compromissos outros que não defender a justiça, vivo batendo nessa tecla. As cotas sociais sofrem menos rejeição e são mais uteis ainda que as raciais. Mesmo assim, defendo as cotas raciais para fins de preparação. Torço para que o governo aja de forma mais inteligente.
Abraço forte,
William Douglas


6 comentários:

Rita Alencar disse...

Concordo com o Professor, em gênero e número. Se houvesse concordância em grau também a utilizaria neste parêntese!

Nugeo Feam disse...

Nunca antes havia lido ponderações tão precisas na discussão sobre as cotas quanto lendo essa série de textos.
Devo discordar de nosso amigo Y quando extrapola a questão de representatividade, dando o sentido de representação da "classe". Vejo que, quando ingressamos na administração pública, quando em cargos não eletivos, temos nossa conduta e atribuições submetidas a princípios e assim atreladas com a finalidade. Qual o sentido de haver representação nesse âmbito? Sou servidor no executivo estadual em um órgão ligado à agenda ambiental. Como uma pessoa nessa situação pode tomar ou influenciar decisões direcionadas a determinadas raças ou em detrimento dessas? A administração pública brasileira, no geral, ainda é relativamente atrasada quando o assunto é eficiência. Portando, usar a máquina pública ineficiente para corrigir atrocidades históricas através de paliativos desprendidos com o cerne do problema é um erro e não contribui para reduzirmos as desigualdades de fato, apenas nas estatísticas.
Realmente se comparar os quadros da administração pública de forma geral, vamos necessariamente ter que encontrar a desigualdade destacada pelo amigo Y. Mas isso também acontecerá com a renda per capta, nível de escolaridade, emprego/desemprego, homicídios. Isso significa pelo menos que o problema é muito mais profundo do que acessar cargos públicos. Vejo que fator que poderia, mesmo de modo paliativo, contribuir para o recuo dessa criminosa situação é a educação.

Andrade disse...

Parabéns pelo artigo, professor William Douglas. Precisamos discutir muitas questões ainda. O governo brasileiro precisa aprender a usar a razoabilidade, pois, não é possível que se queiram sempre resolver o problema pela metade. O Brasil precisa de educação de qualidade desde a base. A política de quotas é preocupação principalmente no âmbito da administração pública, onde se busca premiar o mérito e o serviço eficiente e de qualidade. A questão do preconceito racial parece que ainda não está resolvida, uma vez que, em todas as discussões sempre se fala na questão da classe social, afinal, negro rico não é discriminado, "salvo" o pobre. Da mesma forma que o branco pobre não tem supremacia sobre qualquer negro. Em nosso país, diferentemente do que ocorreu nos EUA e na África não teve movimentos separatistas. Por sinal, os profissionais que mais ganham no país, além dos corruptos, são os jogadores de futebol (a maioria negros), que são tidos praticamente como os herois brasileiros. Enfim...há muitas incongruências neste debate sobre quotas. Além disso, há quem afirme que isso seja apenas marketing político da presidenta. Não sou a favor das quotas, sou a a favor da educação de qualidade para todos.

Allisson RM Martins disse...

Perfeito seu comentário, Senhor Juiz. Reflete o pensamento de muitos brasileiros. Os negros têm que entender que não há somente pobres negros. Cotas sociais seriam mais incisivas no combate à desigualdade do que a cota racial!

Anderson disse...

Abriram a caixa de pandora, o pensamento progressista sempre quer atalhar a história para alcançar sua utopia de um mundo perfeito, bom e belo! As cotas são um desserviço aos próprios negros, trabalho no serviço público, quando um colega negro entrou sem cota me indagaram se haviam cotas na carreira. O preconceito já está no ar, não importa o quanto vc seja bom, sempre haverá o estigma de que o negro foi beneficiado de alguma forma.

Guilherme disse...

Caro professor.
De longa data sou um admirador de sua obra.
A pesquisa sobre essa questão das cotas me trouxe até seu blog, no qual me surpreendi positivamente ao saber que pensamos igual.
Acrescento que precisamos de defensores do bom senso. Infelizmente, alguns preferem empunhar bandeiras bonitas e politicamente corretas, outros procuram benesses eleitoreiras, mas esses se esquecem do essencial. Parabéns pelas iniciativas. O Brasil precisa do envolvimento de pensadores como você.