A qualidade de criador da matéria “Como passar em provas e
concursos”, objeto de livro cujas versões ultrapassam meio milhão de exemplares
vendidos, e ser reconhecido, em gentileza praticada pelos alunos, como “guru
dos concursos”, fez com que várias pessoas e órgãos de imprensa me indagassem
sobre a aprovação, na Câmara dos Deputados, de cotas raciais nos concursos
públicos.
Respondo a todos indagando: DILMA VOTARÁ EM MARINA?
Este é um bom começo de conversa para explicar o que penso.
Repare: o que todos desejamos é que cada brasileiro possa escolher qual
candidato prefere que exerça a Presidência da República no próximo mandato. O
que todos queremos é que vença o melhor. Em eleições, o melhor é aquele que o
eleitor diz que é o melhor. Se fosse um concurso público, melhor seria aquele
que tirasse as melhores notas nas provas. Simples, não? Mas e se você fosse
obrigado a escolher o “melhor” candidato pela cor da pele?
Uma escolha racial para exercer o cargo obrigaria que Marina
fosse cabeça de chapa, e não a Vice na chapa de Eduardo Campos. Afinal, dos que
se apresentam como candidatos à Presidência, ou Vice, ela é a única
inequivocamente negra. Se é para termos uma cota para negros nos concursos
públicos, porque não termos igual solução nos cargos eletivos? Então, como
tivemos uma série de brancos, ainda que de matizes diferentes, seria a vez de
sermos obrigados a votar em alguém da raça negra, não? Depois de Collor e Itamar,
duas vezes FHC, duas vezes Lula e uma vez Dilma, seria hora de acabar com o
preconceito e todos termos de votar em alguém negro. E como Joaquim Barbosa
parece não estar interessado, sem dúvida seria a vez de Marina. Pior é que
aquele contingente considerável de brasileiros que quer Marina seria confundido
com os que apenas votaram nela por força de lei. Faz sentido? Não, óbvio que
não.
Ao desavisado pode parecer que a cota nos concursos é tão
somente uma evolução em relação às cotas nas universidades. Não é. É um passo
para o lado, de trás. Existem dois erros comuns: achar que todas as ações
afirmativas são ruins... ou achar que todas são boas. A cota nas universidades
prepara para competir; nos concursos, elimina a competição onde ela é
indispensável a bem do serviço público e dos seus destinatários.
Sou a favor das cotas para negros e também de cotas sociais
nas escolas, faculdades, nos estágios e até mesmo em programas de bolsas.
Escrevi sobre isso no artigo “Porque aposto meus olhos azuis nas cotas para
negros”. Cotas para estudar, para se preparar para competir. O problema é que
veio o exagero, a proposta de cotas nos concursos públicos. Com estas, não
posso concordar, e digo as razões no artigo “O exagero só atrapalha”. Ambos
estão disponíveis no meu blog (Texto 1) (Texto 2) e Facebook
(/paginawilliamdouglas).
Tanto ter cotas, como abrir mão delas têm vantagens e
desvantagens. No primeiro caso, as vantagens superam as contraindicações; no
segundo, não. Claro que ter essa posição intermediária, por mais fundamentada
que seja, gera antipatias nos dois grupos: dos contra e dos a favor das cotas.
Sobre isso, falo mais adiante. Foquemos nas cotas.
Há muito a fazer: para começar, que o Itamaraty não aceite os
malandros que burlam as cotas, porque ninguém quer que o país seja representado
por diplomatas espertinhos e dispostos a vantagens imorais porquanto
imerecidas. Aliás, combater a esperteza em todos os lugares. Mais: precisamos
de bolsas de estudo, porque não adianta colocar o jovem para dentro da
universidade e não lhe dar condições de estudar. Mais: um programa sério de
acompanhamento desses jovens enquanto se preparam para ir competir no mercado
de trabalho e nos concursos públicos. E prefiro bolsas a fundo perdido (perdido
nada, achado!) para não tornar os pobres, escravos de juros. Se mantiverem este
ou aquele desempenho, ou se trabalharem (de forma remunerada) por tempo, em
locais mais carentes, que a dívida seja considerada quitada.
Também não quero que um negro aprovado em concurso carregue a
pecha, por toda a carreira, de não ser bom o suficiente, mas mero aprovado
pelas cotas. Não acho que devemos abrir mão do melhor fiscal, ou médico, ou
professor, apenas porque um outro – menos preparado – tinha a cor “certa” para
entrar. Defendo que o governo, caso queira, crie ações afirmativas para dar
bolsas de estudo para negros, índios e pobres. Para assumir os cargos, que se
saiam bem em concursos com igualdade de chances para todos.
Denuncio aqui mais um problema: as cotas sociais, para
pobres, alcançariam não só um percentual maior de negros (que infelizmente são
maioria nas classes mais baixas, em apartheid
que envergonha o Brasil). Além de atender a percentual maior de negros,
atenderia também aos brancos pobres. Ocorre que para muitos do movimento negro
a bandeira política é mais importante do que alcançar uma quantidade maior de
negros e também de brancos em igual situação de miséria. Aproveito para
denunciar outro equívoco: não é errado cumular cotas raciais e sociais porque
negros pobres possuem mais dificuldades que brancos pobres. Aliás, a termos
cotas, elas deveriam estar dirigidas para o grupo mais discriminado de todos:
mulheres negras e pobres. Todas essas cotas, repito, para estudo, bolsas e
estágios, não para concursos.
Os concursos não devem ter cotas, nem a racial nem a social:
não é certo tirar o cargo do mais preparado para dá-lo ao mais pobre ou ao “mais
escuro”. Cargo público não é forma de ajudar alguém, cargo público é para
alguém (o servidor público) ajudar o cidadão. Queremos o melhor ali e, para
isso, temos o concurso.
O absurdo de querer usar a boa ideia das cotas para entregar
cargos, e não oportunidades de preparo e estudo, se demonstra com o exemplo com
o qual inaugurei esta resposta. Seria um absurdo obrigar escolhermos um
Presidente da República, ou seja, alguém para se colocar em um cargo público,
por nada senão o mérito. No caso, o mérito do voto. No concurso, o mérito é a
nota. Imagine termos que escolher não o melhor, mas o que tem esta ou aquela
cor.
Enfim, se a Presidente Dilma realmente acha certo que 20% dos
cargos públicos sejam escolhidos pela cor, então ela tem de votar na Marina.
Mais que isso: se realmente crê naquilo que fez, a Câmara dos Deputados
deveria, na mesma lei, estabelecer que os cargos eletivos tenham cotas para
negros. Duas listas, com 20% dos cargos de Deputado e Senador para negros. O
raciocínio é o mesmo. Por que não, então?
Por fim, informo que sei que minha opinião desagrada a
muitos. Os que são contra as cotas reclamam que as defendo na preparação para a
vida; os que são a favor reclamam de minha posição acima expressada. Sou membro
da Educafro, Oscip franciscana que luta pela inclusão racial. Aos meus amigos
militantes dessa causa, em especial aos que pensam diferente de mim, peço que
me desculpem por discordar e que entendam que um homem deve expor seu
pensamento para que do debate surja a melhor escolha. É o que estou fazendo. Se
eu estiver errado, abaixo digo para que a solução seja inclusive mais firme,
caso seja este o sentido em que o país quiser (a meu ver, equivocadamente)
trilhar. Aos que além de discordarem, ainda querem – como alguns pediram –
minha exclusão por conta de minha posição relativa às cotas nos concursos, uma
nota: embora discorde da política de excluir o diferente, e não a pratique,
compreendo o gesto. E, afinal, qual seria ela? Cada grupo, ou país, tem que
escolher seus valores e, como sempre, torço para que a melhor escolha sempre
seja a eleita.
Desagradar aos dois lados do debate é “politicamente
incorreto”? Bem, sobre dizer o que se pensa, cito um pastor negro que foi preso
justamente por lutar contra o racismo: “A
covardia coloca a questão: é seguro? O comodismo coloca a questão: é popular? A
etiqueta coloca a questão: é elegante? Mas a consciência coloca a questão, é
correto? E chega uma altura em que temos que tomar uma posição que não é
segura, não é elegante, não é popular, mas o temos de fazer porque a nossa
consciência nos diz que é essa a atitude correta” (Martin Luther King,
Jr.). O mesmo pastor disse também o seguinte: “Para criar inimigos não é necessário declarar guerra, basta dizer o
que pensa”. Eis aqui o que penso, por menos seguro, popular ou deselegante
que seja: não é uma boa solução entregar cargos públicos senão pelo critério da
competência. Nem amizades, nem tonalidades, apenas competência, isto é o
correto.
Aparecerá ainda algum idiota dizendo que me manifesto por
algum motivo escuso, relacionado a ser professor e palestrante. A este,
respondo com o que diz Kent M. Keith, no livro Faça a coisa certa, apesar de tudo, ao falar dos Dez Mandamentos
Paradoxais (atribuídos em geral a Madre Teresa): “(2) Se você fizer o bem, as pessoas o acusarão de ter motivos egoístas
ocultos. Faça o bem, apesar de tudo. [...] (5) A honestidade e a franqueza o
tornarão vulnerável. Seja honesto e franco, apesar de tudo.” Sempre digo
que o que está à venda são meus livros, não minha opinião. Se os livros
venderem mais, ou menos, por conta do que eu falo, antes assim: detestaria que
alguém comprasse meus livros não pelo seu conteúdo, mas pela minha simpatia ou
antipatia. E a meu sentir, faz parte de “fazer o bem” ser, se necessário,
“politicamente incorreto”, ou contra a maré, como estou sendo agora. Não são as
vendas que me movem, mesmo porque não sou sustentado nem por elas nem pelo
cargo que ocupo. Deus é quem me sustenta e, além do alimento, me protege.
Enfim, para concluir: se estou errado, que se decida em
contrário. Nenhum problema. Sou só uma opinião na multidão, e ela está aqui
formulada. Se o correto é o que fizeram na Câmara, ok, então por que não
fizeram o serviço completo? Vamos levar isso a todos os cargos, já que é tão
bom e justo! Ou, se não, que nenhum cargo seja ocupado por nada senão a
competência nas urnas ou nas provas dos concursos.
Logo, espero que o Senado corrija o equívoco do Executivo e da Câmara dos Deputados. Ou, então, que o Senado seja coerente com a solução proposta e dê um passo mais firme ainda: que crie cotas de 20% para afrodescendentes nas eleições... E, claro, que Dilma vote em Marina.
7 comentários:
O belo da vida é ser livre. Livre para ir e voltar. Livre para escolher. Livre para amar. Livre também para pensar e expressar o que pensa. Isto é democracia. Não é porque discordamos em um ponto que nos tornaremos inimigos, pelo contrario, isto nos aproxima porque nos respeitamos.
Muito coerente sua posição!!! Não tem do que desculpa, é a sua opinião e tem de ser respeitada! Agregou valor a discussão! Os radicais nunca vão buscar a razão, nem o bom senso. Mas você demonstrou ter os dois.
Estimado, professor William
Agradeço sua belíssima manifestação acerca da discordância de Cotas para Concurso Público!!
Pois bem, respeito, mas apresento discordância, tendo em vista que o problema da discussão de raças no Brasil é uma história mal resolvida e que somente agora o país está discutindo sobre a sua pluralidade étnica. O tema está incomodando tanto porque os negros estão ocupando espaços na sociedade e reivindicando seus direitos, sendo certo que a Lei de Cotas devem integrar as políticas públicas e devem levar em conta tanto a política social como a etnia.
Outrossim, verídico que há existência (inicial) de Cotas em Concursos irá contribuir significativamente para tirar das margens da miséria e pobreza os negros que vivem com menos de um salário mínimo.
Por outro lado, referido paradigma equipara-se inicialmente quando do oferecimento de Cotas nas Universidades, onde muitos diziam que a qualidade de ensino e o nível da Instituição seriam prejudicadas, ou melhor, seria rebaixadas.
Assim sendo, como você mesmo afirma em sua argumentação: mais cotas não faria mal nenhum". Logo, defendo que Cotas no Concurso Público seria a vez e o momento da raça negra dar respiro que algo está mudando no pais, muito embora que há muito para reparar a população negra que tanto contribuiu para construção do Pais e, não recebeu nenhuma paga por isso.
Por acaso alguém achou que as cotas raciais se restringiriam às universidades?
Só os ingênuos mesmo.
Em audiência pública na Comissão de Direitos Humanos, Adilson Moreira, especialista em ações afirmativas com doutorado em Harvard, afirmou que se prestasse concurso para a magistratura, muito provavelmente não seria aprovado por ser... negro!
Isso, por si, evidencia o que ele pensa sobre as instituições públicas brasileiras.
Primeiro, acusa, sem rodeios, de que o longo processo de seleção para a magistratura é pautado pelo racismo. Penso que ele deveria se explicar sobre o assunto.
E segundo, caso reprovado por racismo, não confia na Justiça Brasileira para reparar o dano sofrido. Também quanto a isso, penso que ele deva explicações.
Assim, segundo Adilson Moreira, somente através de cotas para negros ele poderia acessar a magistratura.
Na minha opinião, as acusações são graves demais para passar despercebidas. Mas foi o que aconteceu. Nada se disse, ninguém se manifestou. Mas quem se atreveria a tanto? A simples opinião em contrário sentencia o atrevido de racista.
Adilson Moreira é só um dos representantes do forte lobby que trabalha diuturnamente para garantir canetadas legislativas que lhes assegurem um lugar na janelinha desse trem bala da alegria.
Em outro momento da audiência, quando o Senador Cristovam Buarque defendeu a necessidade de vincular a cota para negros à cota social, de modo que apenas negros pobres tivessem acesso às cotas, Adilson Moreira foi taxativo. NÃO! disse ele.
Segundo ele, TODOS os negros, independente da classe social (ricos e de classe média, portanto), devem ter acesso às cotas raciais, sem qualquer limite econômico que lhes impeça o ingresso no serviço público.
É revoltante.
Como se vê, esse cidadão não defende o interesse coletivo dos negros, mas do segmento negro do qual faz parte. E é simples constatar. Se a disputa por um cargo público for travada entre um negro pobre e um negro de classe média, quem terá mais chances de conquistar a vaga?
Não concordo com cotas para negro (pobre ou rico) em concurso público, mas me impressiona ainda mais a discriminação deliberada dos líderes do movimento negro contra os pobres... negros.
E, como ingênuo não sou, adianto que as questões raciais não pararão por aqui.
Estão de parabéns TODOS aqueles que contribuíram para a institucionalização do coitadismo racial.
Parabéns pela coragem. Concordo com seu posicionamento, bem como pelo fato de que devemos sempre manifestar nossa opinião. Opinião não é discriminação.
Concordo com sua opinião, que é lógica e está correta. Edna Santos RJ.
Boa noite,
A cota racial para concursos públicos, ao meu ver, também parece ser um equívoco cometido por aqueles que buscam uma melhor igualdade racial e social.
Concordo com a parte do seu argumento que trata da diferenciação das ações afirmativas em instituições de ensino daquelas para a execução de ações.
Sou um defensor de diversas ações afirmativas e também me sinto desconfortável com essa decisão tomada pela câmara dos deputados.
Como, por ora, não tenho nada a acrescentar ao seu argumento, deixo meu comentário registrado para dar mais uma voz ao coro.
Atenciosamente.
Obs. Faço uma pequena observação que eu não sugeriria alguma ação afirmativa em qualquer processo eleitoral, nem por objetivar o questionamento da decisão tomada pela câmara, pois alguém pode levar a ideia a sério e dar mais um passo atrás.
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