Rio -  A participação da plateia, que correu ao Casarão dos Prazeres no segundo debate do seminário ‘Rio, Cidade sem Fronteiras’, gerou discursos inflamados. Um deles foi protagonizado por Aline Maia, 28 anos, moradora do Jardim Alhambra, na Estrada do Monteiro, na Zona Oeste. Ao término da explanação de Jacson Lima, que contou sua história de resistência dentro dos Prazeres, Aline pediu a palavra e cobrou mais atenção à região onde vive.
Participantes atentos aos rumos do debate no Casarão | Foto: André Mourão / Agência O Dia
Participantes atentos aos rumos do debate no Casarão | Foto: André Mourão / Agência O Dia
“Quis fazer supletivo na EJA (Escola para Jovens e Adultos) e não havia na minha área. Fui estudar em Paciência”, relata Aline, que hoje faz Psicologia numa universidade particular, em Santa Cruz.

Foco na periferia

Mário Dias, do Observatório de Favelas, concordou e lembrou que o município pouco investe fora das regiões mais privilegiadas da cidade. “A Avenida Brasil, por exemplo, não tem qualquer equipamento público em sua extensão”, criticou. “Nossa missão é pressionar os poderes públicos, mas não podemos deixar que eles sejam os únicos responsáveis pela melhoria da qualidade de vida”.

Refugiada do tráfico, expulsa de sua casa na favela da Carobinha, em 2003, Aline mudou-se para a Zona Oeste. Ela defende que a lei de cotas para negros, indígenas e pobres seja mais divulgada.

“Eu mesmo só tomei conhecimento que poderia usar as cotas graças a uma entrevista que vi na TV”, diz. “Pensava que as cotas eram apenas para famosos, como a Taís Araújo”, disse ela, garantindo que há preconceito entre os próprios jovens pobres. “Tem gente que acha que as cotas são para quem é inferior, pois eles entram com notas baixas. É preciso uma campanha de esclarecimento”, pregou, sob aplausos.

Melhoria nas notas de cotas preocupa

Coordenador da Educafro, Frei David se mostrou preocupado com as interpretações otimistas de que o corte das notas para a classificação de alunos inscritos através das cotas está mais alto. Segundo David, a questão é preocupante, pois na verdade aponta que a real função da medida — permitir o acesso de pobres à universidade — não está mais sendo alcançada.

“O que deveria ser motivo para festejar é, no fundo, motivo de preocupação. É preciso ficar muito atento, pois as cotas são para negros, indígenas e pobres que não tiveram oportunidades. Se as notas aumentaram, eles não estão mais sendo assistidos”, disse.

O amor pela sala de aula em 1º lugar

Em meio à discussão sobre a busca de alternativas para melhorar o ensino nas escolas em comunidades ainda não beneficiadas pelas Unidades de Polícia Pacificadora, o depoimento de Selma Vieira, diretora do Casarão dos Prazeres, emocionou. Há dez anos dirigindo o local, que oferece atividades complementares como aulas de judô, informática, teatro, música e poesia a 300 alunos a partir dos 4 anos, Selma relembrou as dificuldades pelas quais passou por conta dos constantes tiroteios entre policiais e bandidos na favela.

“Era preciso ter amor para trabalhar. Eu vim e, ao contrário de muitos colegas, me apaixonei e fiquei”, disse a diretora.

A declaração era uma resposta ao debate sobre a forma como a prefeitura seleciona seus professores. André Ramos, coordenador do projeto ‘Escolas do Amanhã’, admitiu que muitos profissionais passam em concursos e entram nas escolas em favelas já pensando no dia em que sairão.

“Por isso temos o projeto Bairro Educador, que prevê a apropriação pelas escolas de características culturais das comunidades”, explicou.

Selma conta como conseguiu atrair os pais dos alunos. “Reparamos que, quando os chamávamos para falar de notas, as crianças acabavam apanhando. Então mudamos o foco e passamos a chamar os pais apenas para falar de coisas positivas. Deu certo”, encerrou.

Classe média entra na briga por creches

Representante da prefeitura no debate, André Ramos anunciou que o município detectou o surgimento da classe média na luta por vagas em creches públicas. Segundo André, o fato é o chamado ‘problema bom’, pois mostra que a política da prefeitura está no rumo certo.

“A pré-escola é o verdadeiro espaço de desenvolvimento da infância, e a demanda por vagas nas creches aumentou muito”, disse. “Há muitas pessoas de classe média procurando estas vagas”. O coordenador do projeto Escolas do Amanhã, em áreas de risco, garante que a prefeitura vai continuar investindo na expansão da rede pública.