Mostrando postagens com marcador Preconceito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Preconceito. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 23 de março de 2010

Vencendo na vida

Assisti Invictus. Gostaria que você e muito mais pessoas tivessem o interesse e a oportunidade de também ver este filme, um belíssimo espetáculo de lição de vida diante das variadas ofertas nas redes de cinema. Vale o esforço.
É claro que não vou contar o roteiro, muito menos falar dos planos de filmagem. Sou um apaixonado por cinema. Até penso em fazer o curso de cinema da UFF
[1] no futuro. Por enquanto, deleito-me com certas produções, merecedoras não só de boa bilheteria, admiração do público, prêmios, mas também de artigos disparados mundo afora, como este aqui.
Não tenho como não falar de Clint Eastwood que, mais uma vez, dá provas de sua extrema habilidade, ao dirigir este 32º longa de sua carreira como diretor. Aliás, Invictus é também o oitavo trabalho de Eastwood com o músico Kyle, seu filho. Baseado no livro de John Carlin, foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Direção (Clint Eastwood), Ator (Morgan Freeman) e Ator Coadjuvante (Matt Damon) em 2010 e ainda recebeu duas indicações ao Oscar: Melhor Ator (Morgan Freeman), Melhor Ator Coadjuvante (Matt Damon). Reúno estas informações porque acho interessante adentrar no contexto formador de uma produção tão fascinante, tanto no formato quando no conteúdo.
Mas sobre o que fala Invictus? De um legado nocivo em um país sofrido, de uma esperança trazida da prisão, de um jogo que se torna desafio de superação, de um homem que renovou a África do Sul. O filme fala de Nelson Mandela e de um poema que o ajudou a reter a sanidade, o bem e o perdão, Invictus, escrito pelo escritor britânico William Ernest em 1875.
Um século depois, Mandela lia o poema, aprisionado em Robben Island, onde ficou por quase 27 anos, cumprindo pena de trabalhos forçados, por ter lutado contra o regime do apartheid
[2]. Apenas foi libertado em 1990, tornando-se, surpreendentemente, presidente do país em 1994 até o ano 1999. A história deste grande líder da paz você deve conhecer - ou deveria. Fez diferença mesmo no esporte. Mandela foi estratégico ao usar aquilo que mais mobiliza pessoas de todo o mundo, contribuindo para mudar a história do rugby na África do Sul, corroída por segregação racial por quase 40 anos.
Em 1995, com a aproximação da copa do mundo de rugby em plena África do Sul, ainda profundamente dividida entre negros e brancos, Mandela age com sensibilidade e notável inteligência para conduzir os conflitos. Faz do Springboks, a seleção sul africana de rugby, mais que um time. Stop! Se quiser saber como é a história, veja o filme. Lamento, mas não vou cair na armadilha de contar.
Mas faço questão de dividir a grande mensagem de Invictus e suas magníficas palavras: "Não importa o quão estreito seja o portão e quão repleta de castigos seja a sentença, eu sou o dono do meu destino, eu sou o capitão da minha alma". Quem conhece meus livros, sabe de meus pensamentos acerca da performance de um vencedor diante de portões estreitos, castigos e sentenças. Acredito que a carga emocional contida no poema foi tremendamente forte para fazer com que um homem mantivesse sua integridade em todos os sentidos.
Sim, somos donos de nossas escolhas. Escolhemos vencer ou perder, morrer ou viver. Isto também me faz lembrar de outro filme, “Um sonho de liberdade”, em que um prisioneiro, retido injustamente por mais de 20 anos, dá seu próprio veredito: “Aqui, ou você se ocupa de morrer ou se ocupa de viver. Escolhi ocupar meus dias vivendo". Mandela fez o mesmo. E por ter conseguido, espalhou esta possibilidade de vida para seu amado país, contrariou as normas dos rancores, os dissabores do passado. Passou com nota mil no teste de Quociente de Adversidade, aquele que mede o quão capazes somos para enfrentar circunstâncias adversas.
Mandela resistiu na prisão e fora dela. Demonstrou que um ser humano não pode ser deformado por suas lutas e fracassos. Em meu livro “A Maratona da vida - um manual de superação pessoal", escrevo que não é o fraco que sente dor, mas o forte. O fraco recebe o impacto da dor e desiste. O forte prossegue com ela que, por vezes, parece eterna. Mas é o forte quem persiste e vence. Pois bem, os Springboks venceram - e você vai ver o quanto eles sentiram de dor e esforço -, a África do Sul venceu, Mandela venceu. Não é à toa que este líder tornou-se o político com maior autoridade moral no continente Africano, o que lhe tem permitido desempenhar o papel de apaziguador de tensões e conflitos; ganhou centenas de prêmios, como o Nobel da Paz, recebido em 2002. Quando se fala dele, a gente estremece.
Na verdade, anseio que mais pessoas o conheçam, passem a ver filmes assim como um upgrade pessoal, aquisição de maturidade emocional. Mas sei que, infelizmente, muitos estão ocupando-se com investimentos bem menores, focados em leituras fracas, entretenimentos sem conteúdo. É a retroalimentação do mundo.
Para os interessados em algo mais produtivo e que FAÇA VIVER, eu espero que assim como foi para Mandela, que este poema torne-se nosso constante companheiro durante a desafiadora maratona da vida.

(O poema “Invictus” pode ser lido no site
www.williamdouglas.com.br)


[1] Universidade Federal Fluminense/RJ
[2] Política de segregação racial da África do Sul

sexta-feira, 5 de março de 2010

Algumas gostam de nerds

William Douglas, 27/02/2010, 21:04h
Numa entrevista, me surpreendem com uma pergunta nova: “O que eu diria para o William que fez a prova do Colégio Naval, lá pelos 13 anos de idade, com a experiencia do William de hoje, caminhando para os 43?”. A pergunta não era o aprendizado, mas o que eu diria. Boa pergunta, anoto. Então pensei, pensei, pensei... e dei duas respostas. A séria: que eu diria para ele que é possível ir mais devagar, curtindo um pouco mais a vida, que também daria para chegar. Talvez um pouco depois no prazo, mas com mais alegrias. E concluí com um comentário que parece brincadeira, mas é sério: eu diria para ele que algumas meninas gostam de nerds.
Gostam mesmo! Não é por falta de opção não; é porque é o "tipo" delas. Eu não imaginava isso naquele tempo, e só fui descobrir meio tarde. Uma falou, achei que era generosidade, um carinho; depois outra, e outra... e algumas colocavam em prática comigo essa preferência. Só passei a lidar melhor com a "guerra" entre atletas e nerds depois de ver o clássico "A vingança dos Nerds" que, confesso, me ajudou muito. Este e o filme "De volta às aulas" realmente ajudaram o menino confuso com algumas coisas que eu era.
Por falar em confissões, continuo confuso. Resolvi umas dúvidas, amealhei outras, algumas permanecem. Mas, pelo menos, já sei que algumas garotas, e bem interessantes, preferem os nerds. Até os "oclinhos" (sim, dito dessa forma), elas gostam. Como eu precisava dessa informação antes! Como teria sido útil! Bem, para mim chegou meio tarde. Va bene!
Respondi a entrevista, e repeti isso agora, no início de fevereiro de 2010, numa palestra onde gravávamos o novo DVD do livro “Como passar em provas e concursos” (24ª edição).
Hoje, quase um mês depois, saindo de um Shopping, um rapaz bonito, simpático, carinha de nerd, mais alto que eu, meio fofinho (não é gordo, é cheinho; musculoso, mas redondinho, meio "bolo fofo"), abriu a porta para mim no "aquário" do estacionamento VIP. Cara de bom menino. Ele me lembra um pouco o Zezinho, amigo de tempos antigos, mas personagem de outras histórias. Vou chamar o jovem de Tício (para não identifica-lo, apenas).
Enquanto eu pagava, o rapaz se aproxima, me chama por "Dr. William" e eu o cumprimento. Ele, então, me conta:
- Estive em sua palestra em tal lugar, gostei muito. Lembra que o senhor disse que tem meninas que gostam de nerds?
- Sim, respondi sorrindo.
- Pois é, nesse carnaval eu fiquei com uma menina linda, superbacana! Estamos namorando! O senhor tem razão!
Vocês não têm noção de como fiquei feliz, emocionado, gratificado, tudo o que você imaginar de bom. Indaguei a idade e a resposta foi 18. Um menino, volto a dizer, muito bonito, simpático e com planos. Mais alto que eu uns poucos centímetros, e muito, muito forte (repito, no estilo "bolo fofo" que, se ele não sabe, também é opção bem apreciada por aí afora, rsrs).
Conversamos um pouco, ele falou dos planos (bons planos) e estava bem feliz. Perguntei se o fato de ele saber que tinha chances, confiando no que eu havia dito, não teria melhorado seu aproach, sua chegada, acrescentando-lhe atitude (coisa que é, no final das contas, o mais importante). A resposta foi um "com certeza".
Por saber que era possível, ele foi em cima e, por ter ido, conseguiu. Conseguiu porque é um cara interessante, porque algumas gostam mesmo de nerds e porque quem tenta vai conseguir algumas vezes, bem como perder outras. Mas ele foi. E está namorando. Ficou com a garota que parecia impossível.
Algumas vezes troco ideias como quem fala com um irmão mais novo, mas hoje foi quase como que lidando com um filho. Fiquei feliz por, embora a informação não ter vindo a tempo para mim nessa idade, eu ter conseguido passar a notícia para aquele garoto. A informação, e informação é poder, deu a ele uma namorada que eu perdi. E não falo isso com qualquer mágoa. Nada melhor que poder melhorar o tempo ao passar o bastão para o corredor seguinte.
Aos meus filhos desejo o melhor. Não quero ser personagem de mitologia grega, desses que não lidam bem com o sucesso do filho ou sobrinho. Eu quero que meus filhos sejam maiores do que eu em tudo. E aos meninos que estão vindo, meus filhos ou não, amigos ou não, desejo o mesmo. Se eu puder fazer parte disso, me alegro.
Então, hoje, compartilho: fiquei muito feliz pelo Tício, um bom sujeito... realmente um bom sujeito. Que ele sempre encontre as informações a tempo e não como eu, que tenho a impressão que sempre chego nelas com um atraso de, pelo menos, quinze minutos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O quanto de Boris existe em você?

Após ouvir lixeiros desejarem “feliz 2010”, Boris Casoy disse “... que m----, dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras... (risos) ... dois lixeiros... o mais baixo da escala do trabalho.” O episódio chocou. As reações que está sofrendo são exageradas? Ou ele as merece? Os lixeiros desejaram a todos (inclusive a ele, portanto) “paz, saúde, dinheiro, trabalho” e o que se seguiu foi, usando sua terminologia, “uma vergonha”.
O pedido de desculpas, protocolar, não teve eficácia, talvez até o contrário. A oposição entre a imagem do apresentador e o comentário em off, revelador de uma visão elitista e preconceituosa, frustrou a ideia de respeito a todos e ao telespectador (imaginem o filho de um gari ouvindo isso). A rudeza dos comentários não se resolve por ter sido um acidente e não é fácil pedir desculpas pelo que se é ou pensa. Contudo, até que ponto a diferença entre nós e o Boris reside apenas no azar que ele deu pelo vazamento? O quanto de Boris existe em cada brasileiro?
Quando alguém se refere ao ponto “mais baixo na escala do trabalho” pode estar se referindo ao conteúdo moral ou social da atividade (como, por exemplo, criticar o tráfico ou a agiotagem), pelos riscos ou pela remuneração reduzida. A atividade de lixeiro não é nociva à sociedade. Nocivo seria, para a saúde e meio ambiente, que eles não atuassem. Como o risco não é tão grande, por eliminação, resta a remuneração. E aí reside um preconceito que resiste: julgar a dignidade das pessoas, ou das profissões, de acordo com sua remuneração. Há que se reconhecer que nem sempre existe equilíbrio entre a importância social de uma função e os ganhos que esta proporciona. E não se pode confundir o desejo de melhorar de vida ou ganhar mais, e a admiração por quem logra isto, com uma postura de menoscabo com as funções menos rentáveis.
Todo trabalho é digno. O que existe, em cada ofício, são pessoas que agem bem e outras não. Existem servidores públicos, CEO’s, lixeiros, jornalistas e juízes dignos e indignos, o que se define pela forma como exercem sua atividade. Mais que isso, Jesus dizia que “a vida do homem não consiste na abundancia dos bens que possui”.
Se você, leitor, julga alguém melhor ou pior levando em consideração o quanto a pessoa ganha, ou como se veste, ou onde mora, é preciso reconhecer que em você há, escondido, um pouco desse lado sombrio que o Boris revelou ter. Talvez o lado positivo desse episódio seja a reflexão sobre até que ponto ele não revela nossos preconceitos em off.
Camila Pitanga, que faz o papel de uma faxineira na novela global, afirmou que anda pelo estúdio sem ser cumprimentada quando está com os trajes da personagem. Feliz pelo papel ser convincente, não deixou de anotar como é estranho ficar “invisível”, Esse fenômeno já foi objeto de estudo por um professor da USP que, vestido de faxineiro, ficou “invisível” na universidade, por anos. Em suma, quem deixa de ver o faxineiro, não deixa de ter seu lado Boris. Não que o Boris seja de todo mal, ele não é. Ninguém é. Somos todos humanos, com nossos lados luminosos e sombrios.
Boris também errou ao analisar a função de lixeiro. Os "'garis" são figuras simpáticas à população, vivem de bom humor e, ao lado dos carteiros, têm índices de aprovação e confiança que fazem corar os Poderes, a igreja e a imprensa. Infelizmente, estas instituições não são eficientes para limpar seus respectivos “lixos” como os garis o são com o lixo que lhes cabe. Por fim, não esquecer que – com seu jeito e ginga – um gari ilustra o vídeo institucional da bem sucedida campanha “Rio 2016”. No Rio, os concursos para gari são concorridíssimos.
Certa vez, fui a uma festa na casa de um Procurador do Ministério Público do Trabalho (negro e onde grande número de convidados eram afrodescendentes). Fui com meus dois filhos e a babá do mais novo. Ela, negra, não está acostumada a ir a festas com tantas pessoas da sua cor. Em restaurantes e colégios caros, só para dar dois exemplos, é raro encontrar pessoas negras. Depois da festa, perguntei à babá o que ela achou e sua resposta foi: “Achei muito diferente, Dr. William. As pessoas olhavam para mim!”. De fato, quem reparar vai ver quantos ignoram os trabalhadores mais humildes, quando não chegam a destratá-los. Naquele ambiente raro, a jovem experimentou a “não invisibilidade”.
E você, leitor? Cumprimenta seu lixeiro? O garçom? A babá da vizinha? O porteiro? Você os vê? Aquele áudio procura você. Se você se julga, ou julga os outros, por quanto ganha, por qual carro tem, ou se não tem um, então o episódio pode revelar esse lado do Boris em seu cotidiano. Melhor que apenas discutir o que fez o Casoy é também questionarmos até que ponto reconhecemos o valor de todo e qualquer trabalho honesto.