Segundo notícia publicada no Portal IG, “em atenção à
queixa de um cidadão, que se sentiu discriminado pela presença de um crucifixo
no Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo, a Procuradoria Regional dos
Direitos do Cidadão entrou com uma ação civil pública para obrigar a União a
retirar todos os símbolos religiosos ostentados em locais de atendimento ao
público no Estado. A ação, com pedido de liminar, visa garantir a total
separação entre religião e poder público, característica de um Estado laico,
ainda que de maioria cristã, como o Brasil. ‘Minha ação restringe-se aos
ambientes de atendimento ao público. Nada contra o funcionário público ter uma
imagem de santo, por exemplo, sobre a sua mesa de trabalho’. Católico
praticante (‘comungo e confesso’, diz Dias, 38 anos, o Procurador responsável
pela ação. Uma decisão favorável no TRF-SP certamente levará o assunto a outras
instâncias. O único precedente que existe é negativo. Em junho de 2007, o
Conselho Nacional de Justiça indeferiu o pedido de retirada de símbolos
religiosos de todas as dependências do Judiciário. Na ação pública, Dias lembra
que, além de estarmos em um Estado laico, a administração pública deve zelar
pelo atendimento aos princípios da impessoalidade, da moralidade e da
imparcialidade, ou seja, garantir que todos sejam tratados de forma
igualitária. O procurador entende, nesse sentido, que um símbolo religioso no
local de atendimento público é mais que um objeto de decoração, mas pode ser
sinal de predisposição a uma determinada fé. “Quando o Estado ostenta um
símbolo religioso de uma determinada religião em uma repartição pública, está
discriminando todas as demais ou mesmo quem não tem religião, afrontando o que
diz a Constituição’.” (04/08 - 16:29 - Mauricio Stycer, repórter especial
do IG)
O tema vem sendo cada vez mais discutido e, a meu ver,
está sendo objeto de uma interpretação equivocada por aqueles que desejam a retirada
dos símbolos religiosos. O Estado é laico, isso é o óbvio, mas a laicidade não
se expressa na eliminação dos símbolos religiosos, e sim na tolerância aos
mesmos.
A resposta estatal ao cidadão queixoso, mencionado acima,
não deveria ser uma ação civil pública, mas uma simples orientação, no sentido
de que o país ter uma formação histórico-cultural cristã explica que haja na
parede um crucifixo e que tal presença não importa em discriminação alguma. Ao
contrário, o pensamento deletério e a ser combatido é a intolerância religiosa,
que se expressa quando alguém desrespeita ou se incomoda com a opção e o
sentimento religioso alheio, o que inclui querer eliminar os símbolos
religiosos.
Ao contrário do que entende o ilustre Procurador
mencionado, a medida não se limitará aos ambientes de atendimento ao público. O
próximo passo será proibir também os símbolos na mesa de trabalho, seja porque
o ambiente pertence ao serviço público, seja porque em tese poderia ofender
algum colega que visualizasse o símbolo. No final, como se prenuncia no poema
“No caminho, com Maiakóvski”, o culto e devoção terão que ser feitos em sigilo,
sempre sob a ameaça de que alguém poderá se ofender com a religião do próximo.
Nesse passo, eu, protestante e avesso às imagens (é notório o debate entre
protestantes e católicos a respeito das imagens esculpidas de Santos), tive a
ocasião de ver uma funcionária da Vara Federal onde sou Titular colocar sobre
sua mesa uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida. A minha formação religiosa e
jurídica, onde ressalto a predileção, magistério e cotidiano afeito ao Direito
Constitucional, me levou a ver tal ato com respeito, vez que cada um escolhe
sua linha religiosa. A imagem não me ofendeu, mas sim me alegrou por viver em
um país onde há liberdade de culto. Igualmente, quando vejo o crucifixo com uma
imagem de Jesus não me ofendo por (segundo minha linha religiosa) haver ali um
ídolo, mas compreendo que em um país com maioria e história católica aquela
imagem é natural. O crucifixo nas Cortes, independentemente de haver uma
religião que surgiu do crucificado, é uma salutar advertência sobre a
responsabilidade dos tribunais, sobre os erros judiciários e sobre os riscos de
os magistrados atenderem aos poderosos mais do que à Justiça.
Vale dizer que se a medida for ser levada a sério,
deveríamos também extinguir todos os feriados religiosos, mudar o nome de
milhares de ruas e municípios e, ad reductio absurdum, demolir símbolos
e imagens, a exemplo, que identificam muitas das cidades
brasileiras, incluindo-se no cotidiano popular de homens e mulheres
estratificados em variados segmentos religiosos. Ao meu sentir, as pessoas
que tentam eliminar os símbolos religiosos têm, elas sim, dificuldade de
entender e respeitar a diversidade religiosa. Então, valendo-se de uma
interpretação parcial da laicidade do Estado, passam a querer eliminar todo e
qualquer símbolo, e por consequência, manifestação de religiosidade. Isso sim é
que é intolerância.
Embora cristão, as doutrinas católicas diferem em muitos
pontos do que eu creio, mas se foram católicos que começaram este país, me
parece mais que razoável respeitar que a influência de sua fé esteja
cristalizada no país. Querer extrair tais símbolos não só afronta o direito dos
católicos conviverem com o legado histórico que concederam a todos, como também
a história de meu próprio país e, portanto, também minha. Em certo sentido,
querer sustentar que o Estado é laico para retirar os Santos e Cristos
crucificados não deixaria de ser uma modalidade de oportunismo.
Todos se recordam do lamentável episódio em que um
religioso mal formado chutou uma imagem de Nossa Senhora na televisão. Se é
errado chutar a imagem da Santa, não é menos agressivo querer retirar todos os
símbolos. Não chutar a Santa, mas valer-se do Estado para torná-la uma
refugiada, uma proscrita, parece-me talvez até pior, pois tal viés ataca todos
os símbolos de todas as religiões, menos uma. Sim, uma: a “não
religião”, e é aqui que reside meu principal argumento contra a moda de se
atacar a presença de símbolos religiosos em locais públicos.
A recusa à existência de Deus, a qualquer religião ou
forma de culto a uma divindade não é uma opção neutra, mas transformou-se numa
nova modalidade religiosa. Se por um lado temos um ateísmo como posição
filosófica onde não se crê na(s) divindade(s), modernamente tem crescido uma
vertente antiteísta. Para tentar definir melhor essa diferença, vale
dizer que se discute se budistas e jainistas seriam ou não ateus, por não
crerem em divindades além daquela representada pela própria pessoa ou grupo
delas, no entanto jamais se discutiria se um budista é ou não antiteísta. É
inegável reconhecer-se que esta nova vertente religiosa tem seus profetas, seus
livros sagrados e dogmas. Como a maior parte das religiões, faz proselitismo,
busca novos crentes (que nessa vertente de fé, são os “não crentes”, “not believers”, os que optam por um
credo que crê que não existe Deus algum).
É conhecida a campanha feita pelos ateus nos ônibus de
Londres. A British
Humanista Association colocou o anúncio There’s probably no God. Now
stop worrying and enjoy your life (“Provavelmente Deus não existe. Então,
pare de se preocupar e aproveite sua vida”) nas laterais de ônibus britânicos,
ao lado dos tradicionais anúncios religiosos. Repare-se que o “provavelmente”
demonstra educação, senso político ou cortesia, e que nos cartazes nos ônibus
todas as letras estavam em caixa alta, eliminando a discussão sobre se deveriam
escrever Deus com “D” ou “d”. Mas nem todos os ateus são educados e cordatos, embora
uma grande quantidade deles, grande maioria eu creio, o seja.
Assim como o Protestantismo foi uma reação aos que não
estavam satisfeitos com o catolicismo romano, o antiteísmo, ou ateísmo
militante, que vemos hoje, é uma reação dos que estão insatisfeitos com a
religião. Interessante perceber que esta linha de ateus é intolerante e, como
foi historicamente comum em todas as religiões iniciantes ou pouco
amadurecidas, mostrou-se virulenta e desrespeitosa no ataque às demais. Esta
nova religião, a “não religião”, ao invés de assumir o controle ou titularidade
da representação divina, optou por entender que não existe Deus nenhum. Em
certo sentido, ao eliminar a possibilidade de um ser superior, assumiu o homem
como o ser superior. Aqui o homem que professa tal tipo de crença não é mais o
representante de Deus, mas o próprio ser superior. Nesse passo, a nova religião
tem outra penosa característica das religiões pouco amadurecidas, consistente
na arrogância e prepotência de seus seguidores, apenas igualada pelo desprezo à
capacidade intelectual dos que não seguem a mesma linha de pensamento.
Assim, enquanto existe um ateísmo que simplesmente não crê
e que demonstra as razões disso em um ambiente de respeito e diversidade, vemos
crescer também um outro ateísmo, agressivo, que não apenas não livrou o mundo
dos males da religião, mas também passou a reprisá-los.
O principal profeta dessa religiosidade invertida (mas nem
por isso deixando de ser uma manifestação religiosa) é Richard Dawkins, autor
do livro “Deus, um Delírio”. Ele está envolvido, como qualquer profeta, na
profusão de suas ideias, fazendo palestras e livros, concedendo entrevistas e
fazendo suas “cruzadas”. A Campanha
Out (em inglês: Out
Campaign) é uma iniciativa proselitista em favor do ateísmo, tendo até
mesmo um símbolo, o “A” escarlate. A campanha atualmente produz camisetas,
jaquetas, adesivos, e broches vendidos pela loja online, e os fundos se destinam à Fundação Richard Dawkins para a
Razão e a Ciência (RDFRS). Algo que não deixa de ser muito semelhante às
campanhas financeiras típicas de outras manifestações de fé.
Como alguns profetas religiosos, Dawkins não poupa pessoas
ilustres de credos concorrentes. Por exemplo, em seu livro ele diz sobre Madre
Teresa o seguinte: “(...) Como uma mulher com um juízo tão vesgo pode ser
levada a sério sobre qualquer assunto, quanto mais ser considerada seriamente
merecedora de um Premio Nobel? Qualquer um que fique tentado a ser engabelado
pela hipócrita Madre Teresa (...)” (pág. 375).
Naturalmente, entendo que Dawkins e seus seguidores têm
todo o direito de pensarem e professarem qualquer fé, mesmo que seja a fé na
inexistência de Deus e nos malefícios da religião. Contudo, só porque não creem
em um Deus ou vários d’Eles, não estão menos sujeitos aos valores, princípios e
leis que, se não nos obrigam à fraternidade, ao menos nos impõem a respeitosa
tolerância. Outra coisa que não se pode é identificar em qualquer Deus ou
símbolo religioso um inimigo e se tentar cooptar a laicidade do Estado para
proteger sua própria linha de pensamento sobre o assunto religião.
A meu ver, discutir os símbolos religiosos é mais fácil do
que enfrentar a distribuição de renda, a fome, injustiça e a desigualdade
social. Não nego a importância do assunto, mas acharia cômico se não fosse
trágico que as pessoas se ofendam com uma cruz o bastante para acionar o Estado
e não o façam diante de outras situações evidentemente mais prementes. Talvez
mexer com os religiosos seja mais simples, divertido e seguro, mas certamente
não demonstra uma capacidade superior de escolher prioridades. Portanto, parece
conveniente lembrar que católicos, judeus, evangélicos, espíritas e muçulmanos,
e bom número de ateus também, gastam suas energias ajudando aos necessitados.
Tenho a esperança de que nas discussões haja mais coerência e menos
“pirotecnia” e “perfumaria” de quem discute o sexo, digo, a existência dos
anjos ao invés de enfrentar os verdadeiros problemas de um país que, salvo
raras e desonrosas exceções, é palco de feliz tolerância religiosa.
A eliminação dos símbolos religiosos atende aos desejos de
uma vertente religiosa perfeitamente identificada, e o Estado não pode optar
por uma religião em detrimento de outras. A solução correta para a hipótese é
tolerar e conviver com as diversas manifestações religiosas. Assim, os carros
poderão continuar a falar em Jesus, Buda, Maomé, Allan Kardec ou São Jorge sem
que ninguém deva se ofender com isso. Ou, se isso ocorrer, que ao menos não
receba o beneplácito de um Estado que optou por ficar equidistante das
inúmeras, infinitamente inúmeras, formas de se pensar o tema fé. Não ter fé e não apreciar símbolos
religiosos é apenas uma delas, respeitabilíssima, mas apenas uma delas.
Por fim, acaso fosse possível ser feita uma opção, não
poderia ser pela visão da “minoria”, mas da “maioria”. Talvez essa afirmação
choque o leitor. Dizer que se for para optar, que seja pela “maioria” choca,
pois o conceito de “respeito às minorias” já está razoavelmente assimilado. Mas
também deveria chocar a ditadura da minoria, a tirania dos que se transformam
em vítimas ao invés de evoluírem o suficiente para ver nos símbolos religiosos
não uma ofensa, mas um direito, e entender que os que já estão por aí, nas
ruas, repartições e monumentos são apenas uma consequência da nossa longa
formação histórica e cultural.
Em suma, espero que deixem este crucifixo, tão católico
apostólico romano quanto é, exatamente onde ele está. Excluir símbolos é fazer
o Estado optar por quem não crê. A laicidade aceita todas as religiões ao invés
de persegui-las ou tentar reduzi-las a espaços privados, como se o espaço
público fosse privilégio ou propriedade de quem se incomoda com a fé alheia.
Eu, protestante e empedernidamente avesso às imagens esculpidas, as verei nas
repartições públicas e saudarei aos católicos, que começaram tudo, à liberdade
de culto e de religião, à formação histórica desse país e, mais que tudo, ao
fato de viver num Estado laico, onde não sou obrigado a me curvar às imagens,
mas jamais seria honesto (ou laico, ou cristão, ou jurídico) me incomodar com o
fato de elas estarem ali.
5 comentários:
A sobriedade de suas exposições não deixam dúvida acerca da sua imparcialidade nas contendas. De muito tempo venho entrado em debates sobre a questão, quando exponho meu ponto de vista neste mesmo sentido, embora não com a mesma clareza. Ora, as minorias, sob o pretexto de ter direito em ver seus direitos assegurados, vêm confundindo "alhos com bugalhos" ao supor que fazer valer o seu direito deve impolicar necessariamente em aniquilar os direitos das maiorias, e sem qualquer respeito pelos fatos históricos, culturais, sociais, etc., como se tudo tivesse que deixar de ser para não ofendê-las. À propósito, adorei a solução da Inglaterra acerca da "união dos homossexuais". Ora, ninguém quer que eles NÃO sejam respeitados e/ou que NÃO tenham respeitados os seus direitos, mas ninguém pode ser obrigado a realizar seus sonhos e desejos.
Acabei de mudar meu pensamento acerca do assunto. Evangélico e acadêmico de Direito, antes opinava pela retirada dos símbolos religiosos das repartições públicas, mas agora o senhor abriu minha visão, William. Se o espaço público não é deles (católicos, ateus, budistas, etc) muito menos vai ser meu.
Eminente Dr. William, que nosso DEUS te dê cada dia mais sabedoria em todas as áreas da sua vida! Sou teu fã!
Concordo plenamente com a sua publicação, William Douglas. Pois, não podemos esquecer que vivemos em um país democrático e ninguém tem o direito de perseguir ou ser perseguido, porque acredita ou não na existência de Deus.
De arrepiar...
Salve o nosso Estado LAICO. Abraços!
Cecília
Que primor de artigo. Maravilhoso. Li num ímpeto só. Parabéns professor.
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