Caros
amigos,
Recebi
críticas e elogios pela minha manifestação anterior e creio que caiba algumas
observações.
A primeira
delas, é que minha manifestação foi – a pedido de várias pessoas – no calor dos
fatos e, por causa disso, sujeita a emendas após o desenrolar dos fatos. Também
não sou homem de, como fazem muitos, ficar esperando o que dirão para só então
dar alguma palavra, ou mesmo calar, como fazem outros. Sou formado na
Infantaria, me perdoem, eu sou da linha de frente. Contem com minha opinião
desde a primeira hora, não depois de a poeira baixar.
Felizmente,
tive os que entenderam e concordaram com a lógica que eu defendi (e que não
alterei). Dos que discordaram, vários o fizeram de forma gentil, amorosa mesmo,
em atitude que calou bem fundo na minha alma de professor e concurseiro,
qualidade que não perderei nunca. Obrigado aos que foram gentis comigo e
compreenderam que estou defendendo a lisura, e, mais, que só pedi a anulação se
tiver havido vazamento do gabarito, ou seja, se não for possível delimitar o
dano.
Falarei
sobre o “mérito” a seguir, mas me permitam mais um esclarecimento: temos um
país com muita gente em cima do muro, e não sou homem de ficar nele. Acho que
contribuo – como cidadão, antes de tudo - dando minha opinião. Assim é que já
estive várias vezes no Congresso defendendo a lei dos concursos, já “dei a cara
a tapa” centenas de vezes etc. Meu interesse primordial é melhorar o serviço
público. Logo, eventualmente poderei dizer coisas “contra” o interesse dos
concurseiros, mas sempre em defesa da instituição, do serviço público e das
pessoas que estudam. Todas elas, não apenas algumas. Respeito todos, respeito
cada um, mas tenho que ser homem de posição, de princípios, tenho que ter
coerência, pois ela é que nos ampara em um mundo tão louco. A lisura dos
concursos é inegociável e beneficia a TODOS os que fazem por merecer. Por fim,
aos que me ameaçam dizendo que “vou perder leitores”, informo que irei dizer o
que penso, minha consciência não está a venda. Você pode até não concordar com
o que penso, mas pode confiar que eu irei dizer minha verdade assim como cuido
para ouvir as verdades diferentes da minha. Acho que desse embate, respeitoso e
civilizado, é que construímos uma República e uma democracia.
Mais
alguns pontos:
Consertando
Erros
A primeira
informação que recebi é a de que foi a inteligência da Receita que descobriu a
fraude, depois me informaram que foram concurseiros que fizeram a denúncia.
Me avisaram de meu erro da seguinte forma “A denúncia de suposta fraude
partiu de um usuário anônimo do Fórum Concurseiros, cujo endereço é:
Ali,
encontram-se, até o momento, 96 páginas de opiniões, especulações e teorias,
nada de oficial, ou seja, ainda não há notas divulgadas pelos órgãos de investigação
ou pelas instituições envolvidas.”
Em suma,
parabéns a quem denunciou e espero que a inteligência da Receita faça o que lhe
compete. Que os culpados sejam identificados e que a punição seja exemplar.
Anulação
é o caminho?
Se não se
souber a extensão da fraude, penso que sim. Se houver como demarcar o dano,
obviamente que não. Se houve vazamento de gabarito, lamento, mas a melhor
solução é a anulação, pois não podemos correr o risco de haver corruptos
tomando posse.
Todavia, em
notícia que me alegra, e segundo uma das pessoas que me escreveram, “Na
realidade, não se tem conhecimento sobre como se deu a operacionalização da
possível fraude, se por meios tecnológicos (como, por exemplo, o uso de ponto
eletrônico, caneta-espiã, óculos com câmera) ou outros meios. Hoje, sabe-se que
a hipótese de vazamento de gabarito é a que merece menos aceitação entre todas,
o que vem a corroborar a teoria de que a possível fraude tenha sido algo
pontual e delimitado. Tentarei explicar de modo didático, compilando tudo o que
li em fóruns, blogs e grupos. É fato que os quatro candidatos obtiveram
pontuação mínima na disciplina de Administração Geral (nota 4, quarenta
porcento do total de pontos daquela disciplina). Diante da possibilidade de
anulações e alterações de gabaritos pela banca examinadora na fase de recursos,
é difícil admitir o fato de que os possíveis fraudadores, de posse do gabarito,
correriam o risco da eliminação no certame ao empenharem apenas o mínimo de
acertos. Também, de posse do gabarito, acredita-se que os supostos fraudadores
se dedicariam a obter a melhor colocação possível, a qual lhes eliminasse o
risco de lotação em pontos fronteiriços do país (lugares inóspitos, que
praticamente todos os candidatos temem e rejeitam), quando fossem convocados a optar
pelo local de exercício de atividades.”
Se a fraude
for pontual, ficarei felicíssimo, pois é terrível perder um concurso e o “justo
pagar pelo pecador”, vez que existem muitos aprovados por conta do sacrifício
pessoal empreendido.
Ruim para
todos?
Torço para
que a fraude seja limitada e não seja preciso a anulação. Mas, se ela for
necessária, deixo uma explicação: se trinta pessoas receberam o gabarito, a
anulação será péssima para o candidato honesto que “entrou” com justiça nas
vagas, mas será nefasto para os trinta que teriam entrado se não fosse a
fraude. Assim, quando um aprovado pensar que eu sou o “malvado”, ou isso ou
aquilo, gostaria que pensasse o seguinte: eu estou defendendo TODOS os que
estudam, em especial os que seriam eliminados por conta da fraude. Sei
que isso é duro para quem entrou honestamente, mas – se houve vazamento de
gabarito - prefiro que TODOS os que estudam tenham uma nova chance. Quem estuda
terá nova oportunidade e o serviço público estará protegido. Doloroso, mas dos
males o menor. É minha opinião, e não irei mudá-la. Se você fosse o concurseiro
sério do final da fila, eu estaria defendendo o seu direito de não ser roubado.
Entendo a frustração de ver minha fala, mas por favor entenda: estou defendendo
o grupo todo, qualquer que seja a classificação dos que sacrificam sua vida
para chegar lá.
O que
penso
Uma das pessoas que me escreveram disse, e
assino embaixo: “Estou na lista dos aprovados na objetiva. Numa posição
relativamente confortável. E o senhor me conhece, faço por merecer. E tem
vários outros que, assim como eu, tbm estão nessa lista.. Candidatos honestos
que há anos batalham por uma vitória. Candidatos que passam o dia inteiro
estudando, que perdem vida social, ou só a tem virtualmente (facebook, rsrs),
candidatos que deixaram os filhos de lado, ou empregos. Candidatos que sofrem
um enorme preconceito por serem concurseiros. Candidatos que não tem apoio de
ninguém. Candidatos que passam por dificuldade financeira para financiar seu
objetivo de passar em um cargo bom, enfim, candidatos que não merecem passar
por isso. A anulação do concurso,se essa fraude não for generalizada, não seria
e não é a opção mais acertada, tampouco justa. O justo é uma investigação séria
e minuciosa e a punição de TODOS os envolvidos. Hj é crime e cabe cadeia.. O
que não dá é anular um concurso e deixar esses safados, bandidos sairem impunes
e muitos honestos serem prejudicados por isso.. É lamentável viver em um país
como esse. Na verdade é frustrante mesmo.. Só para desabafar, querido mestre!!”
Assino, repito: “A anulação do concurso,
se essa fraude não for generalizada, não seria e não é a opção mais
acertada, tampouco justa grande”. Grifo meu.
Ainda outro, disse:
“Não entrarei aqui na discussão, ecoando
todas as suas vozes, sobre aquelas pessoas que abandonaram empregos, gastaram
todas as economias, tiveram, por muitas vezes, de ausentar-se da função de pai,
filho e esposo, locomoveram-se por longas distâncias para frequentar aulas e
realizar as provas, etc. Pessoas estas que simplesmente não teriam condições
pecuniárias, psicológicas e físicas para repetir toda a empreitada e, pior,
certamente não conseguiriam reparação de danos por meio da lenta e falha
justiça que impera nesta República. Pessoas estas que, não bastasse a tensa
espera pelos resultados das provas e pela apuração formal e oficial dos fatos,
ainda têm de se deparar com opiniões e pronunciamentos que, provedores de um
clima de terrorismo, violentam-lhes a alma e a esperança de justiça.
Confirmando-se, por meio do trabalho das
instituições competentes (nas quais devemos confiar), a tal fraude, não
tenhamos dúvidas de que deva haver punição (e das mais severas), mas que esta
seja aplicada apenas aos responsáveis e após o devido processo legal.”
Também concordo (e vejam como redige bem
esse candidato!). Mais uma vez, contudo, friso que precisamos definir a
extensão da fraude.
A esse mesmo candidato, agradeço as
palavras com as quais concluiu o email: “No mais, concordo com tudo o que
disse. A intenção do seu texto, como sempre, é muito boa. Além disso, a
essência do artigo faz-me identificar com tudo aquilo que o senhor vem pregando
ao longo do tempo. Vejo nas suas publicações algo do bem e princípios comuns
que também movem a minha vida. Mais uma vez, peço que não se chateie com meus
dizeres. São apenas observações pontuais.”
A ele, respondo: amigo, você não me
chateou. Você me alegrou, honrou, ajudou e, creia, tenho muito orgulho e
gratidão por sua postura e por saber que, com anulação ou não, em breve – no
tempo certo, após as agruras todas – serei colega de uma pessoa como você no
serviço público. De você e da moça que também citei, antes.
Conclusão
Tenham
certeza que estou tão frustrado quanto vocês. E que sei o que os que estudam
passam, pois sou um deles e convivo diariamente com quem o faz. Peço que
entendam minha posição antes de saírem me acusando disso ou daquilo. Quero
lembrar que eu não pratiquei a fraude, apenas não quero que ela, se for
generalizada, prejudique as pessoas que fazem por merecer. Igualmente, não quero
ver mais corruptos entrando. O movimento tem que ser de saída, não de entrada.
Como todos, torço para que a investigação mostre que a fraude foi pontual e,
assim, não seja necessária a anulação.
Contudo, em
qualquer caso, concito os concurseiros, os que fazem por merecer, a vencer a
natural frustração e a continuar a caminhada. Já vi isso antes, muitas vezes:
quem não pára, e persiste, terá seu lugar garantido. Essas coisas atrapalham,
atrasam até, mas não têm o poder de impedir sua nomeação e posse. Continue na
jornada e venha ajudar a limpar a casa. Só você, que estuda, pode ajudar a
fazer essa faxina. Que a justa ira pela bandalheira faça de você um servidor
ainda mais comprometido com um serviço público sério, digno e eficiente.
Um comentário:
Caro professor,
Os que pensam que o fato de você ter opinião reduz seu número de leitores sequer leram um livro seu.
Ignore as ofensas. Continue colaborando com o país e com os milhares de concurseiros que se inspiram em você. Um abraço.
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