Síndrome, abstinência, vício - 15.11.08
Eu sou o viciado que quer mais um pico antes de se internar,
o bêbado, o alcoólatra que quer um último copo antes de parar,
o condenado que vê a forca mas degusta bem seu prato predileto,
o suicida que fuma seu último cigarro antes do heróico gesto covarde,
o astronauta sem ar que olha uma última vez o horizonte antes de desmaiar na reentrada na Terra,
o soldado que beija o filho antes de partir,
o médico que reza antes de operar.
Eu sou todas as coisas incompletas, todas as coisas por faltar.
Sou o bailarino na última dança,
o único marinheiro que foi para a sereia sem nem precisar de canto,
que provou do recife só para ver os olhos dela,
seus seios, seu dorso, seu sorriso mais franco, seu gemido, seu arfar, a nuca,
ela andando, ela bebendo, ela indo,
toda sua atração física e metafísica acontecendo.
Sou astronauta fora de órbita querendo aterrisar no Atlântico,
sou a nave enfrentando a atmosfera, mas não sem antes uma última volta ao redor da lua, sem um passeio pelo outro canto da rua,
não sem o último trago, sem uma última dança. E, se não beber, não tragar, não me picar, tudo bem: amei cada segundo do meu vicio, hauri cada átimo dele enquanto houve, do oceano, do mergulho, da falta de ar e do ar em excesso, da chuva dentro do corpo, dela saindo.
Sinto fome, frio, sede, solidão, acho que sou mesmo um astronauta, numa estação espacial, sozinho, olhando a Terra, seus oceanos, Índico, Atlântico, Pacífico, procurando onde dormem sereias, onde nadam, onde andam.
Procuro um telescópio, olho a altitude, o astrolábio, o GPS, todos os instrumentos, olho,
procuro um botão de voltar no tempo: não encontro, estou um século atrasado.
Só quero beber mais uma taça, só mais uma, depois eu volto, aterriso, aos trancos.
Só quero um cigarro antes do tiro ser dado e de o projeto gentil penetrar meu coração já dilacerado,
sorridente, quero da janela olhar a lua uma última vez antes de ser eletrocutado.
Só quero dançar um último tango antes de quebrar a perna no bueiro,
só quero meu último trago, depois cedo, volto, calo, morro, durmo, passo, só não esqueço.
Sempre que olhar o mar vou ficar nervoso, tenso: bebi água salgada e nunca mais serei o mesmo. Toquei física e metafisicamente uma estrela, pousei na lua, de uma estrela que olhei por anos,
adormeci sobre seu corpo, mergulhei fundo, bebi, provei mágica estelar e marítima alguns segundos.
Sorte de astronauta, agora durmo.
Mas antes, antes, antes, eu quero meu último copo, nem que só um gole, preciso beber de novo antes de partir.
Meu copo, a taça, um tango, um trago, uma dança.
12 comentários:
Muito linda essa poesia mesmo! estou lendo seu livro. Esse ano de 2010 comeco a faculdade de Direito,eu achei tao interresante aquela parte do cerebro,capitulo 6,eu preciso trabalhar meu lado que ainda nao foi descorberto!sei tudo de musica,mais nao consiguo estudar por sequer 1 hora diaria! tomara que eu consigua!
obrigado pela atencão!
Cintia, desejo não apenas que vc estude, mas que vença todas as suas metas em 2010!
Abraço fraterno!
OI William!
Seu poema me fez chorar...
Somente com muita sensibilidade
para retratar essas mazelas em bela poesia!
Abraço gde
Helena
Helena, escrevi essa poesia em 2008, num momento de inspiração entre o corre-corre da vida.
Seu choro é prova de sua imensa sensibilidade também.
Abraço fraterno!
Dr. William parabéns por expressar nas palavras um sentido de está sempre faltando algo a nós, potanto somos seres incompletos,sedentos de amor e que vai se fazendo ao longo da vida. E que maravilha é, quando deixamos Deus nos moldar e preencher-nos com o seu incondicional amor.
Abraço fraterno.
Que bom que vc gostou, André! Obrigado!!!
Amigo dr. William,
Obrigado por mais essa linda poesia, a qual, por certo, retrata o sentimento de muitos! Relembre-se "Vida Gasta". Dispensa comentários! Não sei se o sr. ainda lembra de mim e da minha história. Mas informo que estou conseguindo estudar e, aos poucos, esquecer a minha ex-namorada, ainda que a dor da saudade insiste em me visitar. Muito obrigado por tudo. Feliz natal a toda família. Espero ser aprovado no MPSC e logo encontrar uma mulher que seja para sempre! Fique com Deus e suplica a Ele para cuidar bem de você. Abraços, Alan, Criciúma/SC.
Mestre, só queria dizer que a parábola do filho pródigo analisada por você é espetacular, ou melhor, uma injeção de ânimo!
Abração deste seu fã.
Alan, Criciúma/SC.
Alan,
Fico feliz que vc esteja seguindo seu caminho de cabeça erguida, em busca da sua felicidade.
Obrigado pelos recados.
Abraço fraterno!
Este poema fez meu coração pulsar muito forte... incrível!
Camila,
Sinto-me honrado por vc ter se emocionado com este poema.
Grande abraço!
Amigo William, quer dizer que além de escritor, palestrante, juiz, defensor das minorias, torcedor do fluminense e atleta, você também é poeta nas horas vagas? Não conhecia esse seu lado póetico!! Parabéns pela sensibilidade!
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