terça-feira, 22 de julho de 2008

O acolhimento

William Douglas, 19.7.2008, 5:50h.

Este é o caminho da flor, da abelha e
do rio. É para ser lido sem pressa, sem
o que não poderás respirar o outro.


Deita-se a orquídea,
que ao mesmo tempo confia, posto que deitada,
e teme, posto que há séculos treme, e sofre.
Não é só flor, mas também criança, bebê,
/ um pequeno ser tangível e etéreo.
O barro dessa estrada, o pavimento dessa
senda, a trilha única dessa vereda
usa por nome "sensibilidade".
Se a tiveres, caminha; se não, só respira.
É preciso silêncio, vários: no mundo,
o teu, o da orquídea, para se completar
/ um espaço sereno e calmo,
para que um toque sutil, suave, terno,
faça a orquídea pulsar num leve abrir de
comissionamento,
num abrir-se de aceitação e confiança.
Em seguida, toca-se o bebê
como as aves sobrevoam os prados,
como a brisa as ondas, como a bruma a areia.
Tuas mãos e braços devem tomar
/ por nome a gentileza, e levitar em
movimentos circulares, curtos, longos,
calmos e um pouco mais rápidos, doces,
parabólicos.
Seus dedos, o dorso das unhas,
teu corpo todo e integralmente dedicado,
tudo para tecer um outro degrau de contato.
Ela, a orquídea, deve se permitir, e aceitar,
ser só uma boneca de pano,
solta na cama.
Uma Emília, como a do Sítio do pássaro
amarelo: solta, absorta, leve, lírio,
orquídea, bebê pequeno.
Emília, e como toda Emília,
um emaranhado de força e fragilidade,
de doçura e agitação:
mas te cabe silenciar qualquer
/ sobressalto, para que
hoje a orquídea durma.
Precisarás ter a sabedoria do
/Visconde de Sabugosa,
e a pureza ingênua do Pedrinho,
para que ela se entregue,
e para que, distraindo-se tu, ela não evapore.
Sim, há de haver merecimento:
tu também és orquídea, e
estás a serviço do embelezamento do
universo.
E o universo, aqui e agora, é a alma,
a emoção, a pele, o sentimento.
E para tocar a alma sobrevoarás e
tangenciarás o corpo,
compartilharás a energia
como dois náufragos o
último bocado de alimento,
e, num milagre sutil,
só possível diante do servir e do
/ acolhimento,
o pão será multiplicado,
alimentarás e serás alimentado,
haverá um copo de seiva,
haverá pólen que recolherarás
melineamente, e, melífluo,
como manteiga,
como água corrente de cachoeira
/ saindo a passear por córregos e seixos,
serpentearás até o oceano, quando,
enfim, serás finalmente um ser completo.
Tu e a orquídea de
/ quem jardineiro cuidas.
Mas sempre sem pressa alguma,
sem outro desejo que não seja adocicar
a orquídea, acolher o bebê,
enternecer a alma tão merecedora de amor
/ quanto a tua.
Toda Emília pulsa, toda orquídea vibra,
todo bebê ri, sorri e gargalha, e
tu nada és senão a brisa, a bruma,
o leite, a abelha, o toque:
tu és o sereno que acaricia a folha.

Teu prêmio será a orquídea rara,
o bebê sorrindo, a Emília nua
/ (não a nudez do corpo, pois o corpo
/ facilmente se desnuda).
Teu prêmio será a nudez tranqüila de quem
/ confia, de quem despe da alma o pesado
traje do medo, da culpa, do controle,
e do receio de ser tocado.
Teu prêmio será teu coração terminar na
ponta de teus dedos, e ao final deles
outro coração estar batendo.
Tu, então, estarás pleno, e serás folha,
e quem tocaste, a gota de sereno repousada,
ela, a bruma, tu serás areia,
tu serás o prado onde ela, pássaro,
fará um longo e suave vôo elíptico sobre a brisa.
E respirarás então, outra vez,
jardineiro de um jardim onde não sabes
mais quem é a planta, quem é a terra.

3 comentários:

Anônimo disse...

William Douglas sempre nos surpreende! Conseguiu retratar nesta linda poesia o verdadeiro sentido de unidade, de agregação.
Parabéns homem iluminado!

Unknown disse...

Nossa! Eu não sabia que você era tão notável poeta! Fiquei sem respirar!

Anônimo disse...

Ufa...dr. William! Você, hoje, me transformou em orquídea.
Sabe quando você precisa ouvir ou ler algo que te tire o peso dos céculos?
Pois é... obrigado.