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sábado, 13 de setembro de 2014

Apostas Certas [POESIA]




William Douglas, 11.9.14, 9h



Meus filhos são minha melhor aposta.

Eles são meus embaixadores no futuro, levando-me a

tempos em que eu mesmo não estarei aqui.

Levarão meu DNA, minha história, levarão tudo que eu puder incutir neles.

São meus mísseis intertemporais para explodir um novo tempo,

meus foguetes astronáuticos capazes de cruzar a dobra do tempo,

meus exploradores do amanhã, levando minha bandeira às novas luas.

Porém, são todos melhores do que eu. E terão suas próprias histórias.

E talvez bandeiras além das que lhes apresento. Eles escolherão algumas,

e de serem assim, parte eu, parte eles, parte a mãe, seremos um time invadindo

o tempo, a história da nossa cidade, do país, do planeta e das explorações galácticas.

Hoje sou luz e eles ignição, hoje ficam à minha sombra enquanto crescem,

mas em breve eu serei sombra e eles, luz; eu,  o passado, eles,  o presente,

e quando for assim meus netos serão o novo futuro: os próximos passos.

Meus filhos se melhoram, pois dou mais do que tive, assim como sei que

de meus pais tive mais do que eles mesmos puderam ter.

E vamos levando de geração em geração uma tocha cada vez mais firme.

A pé, ônibus, carro, helicóptero, teletransporte: estamos evoluindo.

Meus pais me recomendaram  segurança, eu recomendo a revolução.

Meus pais me deram suas histórias, eu somo as minhas e entrego mais pretensões ainda.

Por isso sobrevivemos aos dinossauros:

humanos somam aprendizados e histórias, amores e planos.

E, se não bastasse, há a mãe a lhes fornecer sua verve, brio, sonhos e costumes,

E, mais ainda, há Deus, no fundo estabelecendo a fórmula perfeita que

conjuga seu Todo-Poder e controle das coisas com as escolhas que nós dá.

Somos a fórmula atômica da eleição divina e da eleição humana.

Nossos filhos são a fórmula atômica de tudo que somos com tudo que são,

Mas a eles pertence o futuro, então deles é a fórmula mais rica e poderosa.

E, por serem tudo que recebi e sou, tudo que recebeu e é a mãe,

Por serem tudo que Deus quer e planeja, e Deus tem planos bons,

e ainda por serem tudo que são eles mesmos, e por portarem

a semente de seus próprios filhos, os filhos que irão gerar,

não há como negar que são minhas melhores aposta, face e expressão,

são meu melhor projeto  posto que é projeto que vai muito além de mim,

meus filhos são a certeza de que um dia o universo será um lugar bom,

 apenas o quintal de nossas casas, um quintal com paz e justiça,

um quintal com amor.

E, descoberta a fórmula secreta, quântica e há séculos buscada,

todos, inclusive eu, a amada, os pais e amigos, todos estaremos juntos:

um dia haverá uma mesa sobre as estrelas nos reunindo a todos.

Até que este dia venha, porém, já quero meus filhos perto.

Vamos fazer valer o dia. Cada dia conta,

cada dia é sua própria paga.


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Um minuto só (por Tais Machado)


por Tais Machado


Fiquei novamente impressionada com a diferença que faz um minuto.

No sábado (24/05), foi a final da Liga dos Campeões, importante campeonato no futebol europeu. Pela primeira vez dois times da mesma cidade, digamos, um primo rico e outro pobre, disputaram essa final. A cidade é Madri, embora a disputa tenha sido em Lisboa. Os dois times eram Atlético de Madri e Real Madri.

O Atlético venceu por 1 a 0 no tempo de 90 minutos, tempo oficial de uma partida. Campeão? Não, geralmente os juízes dão alguns minutos de prorrogação. Aquele juiz resolveu dar 5 minutos. Passado os 4 minutos, onde o Atlético já sentiu o gostinho da vitória, praticamente com a taça na mão, ainda tinha o minuto final e nesse, tão somente um minuto, o Real empatou. E na próxima meia hora de prorrogação o abatimento e cansaço do Atlético fez com que ele encerrasse aquela partida perdendo pelo placar de 4 a 1. Que virada!

Chamou-me a atenção a diferença que um minuto fez na vida daqueles jogadores. Sobretudo, para os jogadores do Atlético, fiquei a imaginar o quanto eles lamentariam e carregariam para sempre na memória a diferença que esse 1 minuto fez. Tão perto e tão longe de ser campeão por causa de um tempinho tão curto…

A expressão “espere um pouco, só um minutinho” é comum. Dizemos para expressar que não estamos prontos, que haverá necessidade de esperar, que agora não. São filhos que dizem às mães, esposas que dizem aos maridos, empregados que dizem a seus chefes, e por aí vamos, banalizando 1 minuto.

Lembrei também de outro minuto final. Quando Jesus já estava crucificado, outros dois criminosos foram crucificados com ele. Um deles insultava Jesus nos minutos restantes de vida. Preferiu terminar sua vida com xingamentos, com reclamações e blasfêmias. Essa foi sua escolha do que fazer com seu minuto, com seu fim. Já o outro o repreendeu, depois, virou-se a Jesus e disse: “Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino” (Lc 23.42). Ele, assim, preferiu investir ao invés de desperdiçar seu último minuto. Optou por um diálogo significativo, boa reflexão sobre a vida e arrependimentos possíveis. Soube bem aproveitar, e mesmo perdendo a vida, ainda a ganhou.

Uma linda canção, de um dos maiores poetas que já tivemos dentro da música cristã brasileira – Sérgio Pimenta, também salienta o momento (que pode ser de um minuto só): “Nem um momento só deixou sua mão/Deixou-me o seu olhar/Nem quando eu dava dó/Negou-me o seu amar”. Como essa convicção faz toda a diferença em cada minuto que se vive!

Um minuto não é pouco, dependendo do contexto, ele pode fazer toda a diferença. Como olhamos para uns poucos minutos? Eles lhe são preciosos ou tem sido desperdiçados? Já calculou a sua vida não em anos, mas em minutos? Talvez tenha até a impressão maior de que envelheceu mesmo. Mas o ponto é considerarmos como lidamos com o tempo, ainda que curto. Aproveitamos ou banalizamos?

Não sei quantos minutos gastou para ler esse breve texto, mas que lhe ajude a pensar sobre suas escolhas em relação ao tempo, sem esbanjar insensatamente. Que tal prestar mais atenção em seu próximo minuto, e no outro, e no que vem a seguir, enfim, na vida?

Fonte: Ultimato


quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A Mula


William Douglas,
11/11/07, domingo à tarde, Taquaral.

Depois de pegar a preá pequena nas mãos, minha filha e meu pai partem para alguma nova aventura. Antes, já tinham circulado pelo Sítio, o avô puxando a égua, sobre ela a "patroinha" e seguindo o cortejo "sharpay", a potrinha de poucos dias de vida, marrom, com uma estrela branca na testa, como se soubesse de onde veio seu nome. Deito-me.
A luz apagada e o cheiro das coisas me remete à casa do avô, distante trezentos metros no espaço e trinta anos no tempo. O cheiro é o mesmo, exatamente o mesmo. Eu poderia ouvir meu avô andar pela casa, quase me levanto para furtar mais doce de leite da Maria Luiza, mãe de meu pai. Mas "não", me contento em, já não tão desatento, acender a luz e pegar uma caneta para contar o que vejo, sinto, ouço, nem sei. O único caderno disponível é de 1993, com a assinatura de minha mãe, e de novo viajo no tempo. Escolho uma folha como quem profana o sagrado: o caderno da mãe já morta. No caderno, contudo, ela vive. Fico confuso, mas escrevo.
Minha filha vai na sela como uma princesa, eu sequer tive um cavalo. A egüinha neonata é dela, que negociou há poucas semanas com o avô esse delicado assunto. Dona do "Pepetinha", a última cria da égua, queria também o novo filhote. Eu, sabido, quis que ela abrisse mão do antigo, ela resistiu mas cedeu, tendo a idéia de dá-lo para o irmão e a dúvida algoz se nesse trato se meteria o avô, afinal. O avô aceita, o "Pepetinha" fica pro Lucas e ela com a cria que viria. Se macho, "Troy", se fêmea, "Gabriela". Mas desde então a Sharpay parece ter feito qualquer coisa no High School Musical e tomou a frente. Luísa deu uns pulinhos ao saber que a cria era menina e, pronto, "sharpay" é como se chama. Eu estou no ar condicionado. A menina já está com o repelente de insetos, sim, o progresso passou pelo Sítio. Mas, d´alguma forma, os meus avós rondam pela casa. O ar condicionado só está aqui como prova do tempo que passa, mas posso ver o menino loirinho rodando pelos riachinhos, pescando. E por ele cruza a loirinha, majestática. Num átimo, eu menino e minha filha brincamos perto, quase juntos, transtornando o tempo, a lógica e a cronologia.
Não saio do quarto: temo me reencontrar menino. Ouço minha mãe chamar qualquer coisa e é como se ela e Luísa finalmente se vissem. Não saio do quarto: temo mexer naquilo que não entendo.
Eu já contei antes, no livro: meu avô não sabia pronunciar o nome do neto. Era algo parecido com "Dôguis" o que ele falava para dizer o nome de avião que ao neto deu seu filho sonhador, o menino do engenho, também arteiro, que queria voar, que saiu do meio do mato para ser professor, para estudar na Europa.
Sim, Izequias já velho, 68, aceitou de bom grado (e mesmo adivinhou) a intenção da neta: poupou-lhe no acanhamento e recebeu "Pepetinha" de volta, cedendo-lhe o potro por nascer, na já narrada negociação de poucas semanas atrás. Hoje, então, Luísa veio conhecer sua potrinha, cujo sexo ainda não sabia. Ela disse para o avô, três ou quatro vezes, o nome da égüinha: "Sharpay". Desde a primeira o avô alertou que era nome difícil... e lá pela quinta eu tive que ralhar com a menina : "Filha, fale direito com seu avô!" Ela tinha se exasperado, reclamando de ele não conseguir falar o nome de seu presente.
Hoje, céu cinzento, o tempo se perverte: o meu avô não sabia falar meu nome, o avô de minha filha não repete o nome da égua. As gerações, os tempos, os acasos, tudo se encontra. Apenas o ar condicionado me prende à lógica do tempo, do progresso e da morte.
A foto digital que tirei de minha tia, Lídia, 73, há pouco, também diz alguma coisa. Ela tem aquela dignidade estranha, singular, quase incompreensível dos homens do campo. Eles têm uma altivez serena, um olhar profundo, uma realeza que não advém de posses ou riquezas materiais (que sequer têm). Essa postura deve vir do campo, de fazer brotar a alface, a couve e a chicória, de ver nascerem os bichos, de interagir à noite com as estrelas, de comer galinha sem hormônio, leite sem acetona, berílio ou tungstênio.
A filha ralha com o avô, e eu intervenho. Ah, se ela soubesse que eu não tive isso! O avô, o meu, já disse antes: éramos de mundos tão diferentes! Ele sequer sabia falar meu nome. Eu tinha medo dos grilos, ele dos sons da cidade, e talvez da luz lancinante dos postes com faróis de mercúrio. De repente, meu pai Doutor na Espanha, o aviador, titular em tudo, não pronuncia direito o nome do cavalo (egüinha) que deu pra neta.
Me assusto: o mundo deles deve ser também tão distante... E longínquos assim, na vez passada tomaram banho de lama. Fotografei-os como se filma quando o homem pousa na Lua. Fico assustado, sim, sharpay, sharpay. Que mundos distantes!
E, num milagre esplendoroso, eles caminham juntos, riem, colhem flores, olham cobras e caçam preás assustadas. Quantos mundos distantes pousaram no Sítio esta tarde! Eu queria dormir, apenas.
Mas o cheiro de tudo me sobressalta: a cama e a pele de meu pai cheiram a meu avô em minhas memórias enevoadas, e não tenho acesso ao doce de leite, ao doce de leite de minha avó, Luiza, nem ao som terno ou ao afeto abraço de minha mãe. Em breve, meu pai e a neta pularão na piscina que eu não tive. Houve progresso, prosperidade, criada por Deus e pelo pai, que saiu dali para ganhar o mundo, aviador, o sonhador que não fala "sharpay".
Um cão late, logo, não posso estar dormindo. Mas não faz sentido: vejo-me menino brincando com uma menininha loira, arteira, que anda pelo Sítio com ares de dona. "Patroinha", é como lhe chamam os caseiros. Eu continuo à procura de barrigudinhos, peneira na mão e cabeça nas estrelas. A idéia é ser astronauta, daqui a algum tempo.
O que essa menina tem que gosta tanto de ser dona e de andar a cavalo? Meu irmão menino cruza por mim em busca de gaviões, minha mãe chama para a refeição... não faz sentido, são quatro da tarde, a mãe está morta, o tempo está louco, o avô – de facão na cinta – cruza os umbrais da porta (sempre procuro em sua algibeira seu relógio de bolso, sempre). A avó e o doce de leite, não acho. Nem mesmo o cheiro. Enquanto escrevo, a filha entra no quarto suada, querendo saber da roupa de banho. Pega a chave do carro e some apressada. Me critica por não ir para a piscina. É, já não sei se durmo ou acordo.
Os avôs têm dificuldade com os nomes, é certo. Mas o avô de minha filha brinca com ela, e já lhe deu um cavalo, depois uma potrinha, e toma banho de lama. A figura de meu pai novamente me desafia: que tipo de avô eu serei para meus netos? Não bastassem seus feitos profissionais quase miraculosos, agora não mostra qualquer pejo ou constrangimento em misturar-se à lama como faziam os porcos de que cuidou para poder estudar o segundo grau. Não se percebe nele qualquer vacilação para puxar o cabresto da mula. A menina não sabe, mas seu dedicado pajem tem Doutorado em Educação na Espanha. E quanto ao cabresto, sabe puxá-lo desde menino, quando no lombo da mula levava banana e aipim, melado, batatas. A única coisa perene é a mula. Sim, a mula é que não muda. O homem à frente do cabresto construíu-se, a carga no lombo da mula não é mais o fruto da terra, mas o fruto do ventre projetado no etéreo. Não é mais a herança da terra, mas a dos próprios lombos do lavrador que queria ser doutor, estudar, fazer-se grande e fez-se. Eu fico no ar condicionado, preciso dormir, é claro. Enfim, lembro de meu pai, anos atrás, sempre dormindo nas tardes de domingo. Enquanto isso, meu eu menino e minha filha correm pra piscina. O avô presente vai junto deles. O menino loirinho se assusta: "Como é que construíram aqui, tão rápido, uma piscina?" Ouço uma voz alegre a berrar pela menina. "Que avô arrumou essa loirinha?", penso não sei se "eu" ou meu "eu menino". Avô moleque, aviador, maluco. Eu serei astronauta, um dia.
E, talvez daqui a trinta anos, uma mulher loira e muito interessante aterrisse no Sítio algum veículo voador do último tipo. Dele descerão meninos e meninas, e meu eu idoso quererá segui-los pelo meio do mato ou do que tivermos construído ali perto. Minha neta ou neto terão nomes ou coisas cuja tormentosa pronúncia me fará voltar no tempo.
Sentarei, sereno, na roda dos homens velhos. Serei um sábio. Olharei meu avô e meu pai e serei um deles, e terei no semblante a dignidade estranha dos homens do campo. Tomaremos café. Minha avó e minha mãe trarão doce de leite e um bolo. Enquanto isso, meu pai menino, meu eu loirinho e Luísa, a menina, e o Lucas, correrão pelo lugar em companhia das crianças que trará o tempo. O mesmo tempo que me fará perder o medo da lama, como não tinha antes. As mesmas crianças que sentarão um dia na roda dos velhos, comigo, com meu pai e meu avô sereno. Seus "eus" adultos.
Naquele tempo, como outrora, os meninos e as meninas, no quintal, no mato, na água, estarão brincando.