Queridos,
Paul
Auster é um escritor
norte-americano muito reconhecido e premiado, autor de
vários best-sellers como Timbuktu,
O Livro das Ilusões, A Noite do Oráculo e A Música do Acaso. Para falar sobre o Dia dos Pais, escolhi
um texto dele, extraído do livro Caderno
Vermelho: histórias reais (São Paulo: Companhia das Letras , 2009, págs.
32-36), cuja leitura recomendo.
Eis o texto, que trata de uma história real:
Um dos meus amigos mais íntimos é
um poeta francês chamado C. Já nos conhecemos há mais de vinte anos, e embora
não nos vejamos com frequência (ele mora em Paris e eu em Nova York), o vínculo
entre nós continua forte. (...)
C. teve uma infância difícil. Não
posso dizer até que ponto isso explica alguma coisa, mas os fatos não devem ser
negligenciados. Seu pai, ao que parece, fugiu com outra mulher quando C. era
criança e depois disso o meu amigo foi criado pela mãe, um filho único sem
nenhuma vida em família para contar. (...)
Embora não seja pai, C. virou uma
espécie de pseudopai, sete ou oito anos atrás. Depois de uma briga com a
namorada (durante a qual eles ficaram temporariamente separados), ela teve um
breve caso com outro homem e ficou grávida. O caso terminou quase em seguida,
mas ela resolveu ter o filho por conta própria. Nasceu uma menina e, embora C.
não seja seu verdadeiro pai, dedicou-se a ela desde o dia do seu nascimento e a
adora como ela se fosse de sua própria carne e sangue.
Um dia, há mais ou menos quatro
anos, calhou de C. estar visitando um amigo. No apartamento, havia um Minitel,
um pequeno computador distribuído gratuitamente pela companhia telefônica
francesa. Entre outras coisas, o Minitel contém o telefone e o endereço de todo
mundo na França. Enquanto C. estava ali sentando brincando com a nova máquina
de seu amigo, de repente lhe ocorreu procurar o endereço de seu pai. Ele o
encontrou em Lyon. Quando voltou para casa, mais tarde, naquele mesmo dia,
enfiou um dos seus livros num envelope e mandou-o para o endereço em Lyon –
iniciando o primeiro contato com o pai em mais de quarenta anos. Nada daquilo
fazia nenhum sentido para C. Até ele se ver fazendo aquilo, nunca havia sequer
passado por sua cabeça que quisesse fazer algo semelhante.
Na mesma noite, encontrou uma outra
amiga num café – uma psicanalista – e lhe contou sobre aqueles gestos
estranhos, irrefletidos. Era como se tivesse sentido o pai chamando por ele,
disse, como se uma força misteriosa tivesse se desencadeado dentro dele.
Levando em conta que não tinha absolutamente nenhuma lembrança do pai, não
podia sequer imaginar quando os dois teriam se visto pela última vez.
A mulher pensou por um momento e
disse: “Quantos anos tem L.?”, referindo-se à filha da namorada de C.
“Três e meio”, respondeu C.
“Não posso ter certeza”, disse a
mulher, “mas eu podia apostar que você tinha três anos e meio na última vez em
que viu seu pai. Digo isso porque você ama muito. L. Sua identificação com ela
é muito forte e você está revivendo a sua vida através dela.”
Alguns dias depois, chegou uma
resposta de Lyon – uma carta afetuosa e muito cordial do pai de C. Depois de
agradecer pelo livro, ele contava como tinha ficado orgulhoso de saber que seu
filho havia se tornado escritor. Por mera coincidência, ele acrescentava, o envelope havia sido
despachado no dia do seu aniversário, e ele ficou bastante comovido com o
simbolismo do gesto.
Nada disso condizia com as
histórias que C. tinha ouvido na infância. Segundo sua mãe, o pai era um
monstro de egoísmo que tinha fugido com uma “piranha” e nunca quisera saber do
filho. C. acreditara naquelas histórias e por isso havia se esquivado de todo e
qualquer contato com o pai. Agora, diante da força daquela carta, ele não sabia
mais o que pensar.
Decidiu escrever uma resposta. O
tom de sua carta foi contido, mas assim mesmo era uma resposta. Dias depois,
recebeu uma réplica, e a segunda carta era tão afetuosa e cordial quanto a
primeira. C. e o pai começaram a se corresponder. A troca de cartas se
prolongou durante um ou dois meses e, por fim, C. começou a pensar em fazer uma
viagem até Lyon para encontrar o pai em pessoa.
Antes que pudesse fazer qualquer
plano definitivo, ele recebeu uma carta da mulher do pai informando que este
falecera. Havia alguns anos que sua saúde andava mal, escreveu ela, mas a
recente troca de cartas com C. lhe trouxera uma grande felicidade e os seus
últimos dias tinham sido cheios de otimismo e alegria.
Foi naquele momento que eu soube,
pela primeira vez, das incríveis guinadas ocorridas na vida de C. No trem de
Paris para Lyon (a caminho do primeiro encontro com a sua “madrasta”), ele me
escreveu uma carta em que fazia um relato resumido do último mês. Sua letra
refletia cada solavanco dos trilhos, como se a velocidade do trem fosse uma
imagem exata dos pensamentos que giravam em sua mente. Como ele escreveu em
certo trecho da carta: “Eu me sinto como se tivesse virado um personagem de um
dos seus romances”.
A madrasta não poderia ser sido
mais simpática durante aquela visita. Entre outras coisas, C. soube que o pai
tinha sofrido um ataque do coração na manhã do seu último aniversário (o mesmo
dia em que C. tinha localizado o endereço dele no Minitel) e que, sim, C. tinha
exatamente três anos e meio na época em que os pais se divorciaram. Então sua madrasta
lhe contou a história da vida dele do ponto de vista do seu pai – a qual
contradizia tudo o que a mãe lhe contado. Nessa nova versão, era a mãe que tiha
largado o pai; era a mãe que havia proibido o pai de ver o filho; era a mãe que
havia partido o coração do pai. Ela contou a C. como seu pai ficava rondando o
jardim de infância quando ele era pequeno para vê-lo através da cerca. C.
lembrava-se daquele homem, mas sem saber quem era, tinha ficado com medo.
A vida de C., agora, se tornara
duas vidas. Havia a versão a e a versão b, e ambas eram a sua história. Ele
tinha vivido as duas na mesma medida, duas verdades que se anulavam mutuamente,
e o tempo todo, sem sequer saber disso, ele estivera imprensado entre uma e
outra.
Seu pai fora proprietário de uma
pequena papelaria (o costumeiro estoque de papéis e material de escritório, com
uma loja de aluguel de livros populares). O negócio lhe permitira ganhar a
vida, mas pouco mais do que isso, e a herança que ele deixava era muito
modesta. Os números, porém não são importantes. O que conta é que a madrastra
de C. (a essa altura, uma pessoa idosa) fez questão de dividir o dinheiro com
ele meio a meio. Não havia nada no testamento que a obrigasse a fazer isso e,
moralmente falando, ela não precisava abrir mão de nenhum centavo das economias
do marido. Ela fez isso porque quis, porque a deixava mais feliz dividir o
dinheiro do que guardá-lo para si.”
Lições
Considero uma ousadia
querer listar algumas lições dessa história, mas o faço antecipadamente pedindo
desculpas por isso. Creio, porém, que se postas em práticas elas trarão mais
bem e paz ao planeta e a nossa volta.
- Antes de julgar qualquer caso ou pessoa, precisamos ouvir os dois lados da história. Em geral, sempre há três visões: a de um, a do outro e a correta.
- Ser pai de quem precisa de um pai, como C. fez com a sua meia-irmã.
- Não devemos colocar os filhos no meio das disputas com o “ex”. É preciso poupá-los, até mesmo porque os maiores danos desse comportamento serão nos filhos. Não pode haver “filhos separados”, apenas “casais separados”.
- Devemos estar abertos para retomar histórias interrompidas pela vida, voltar a conversar, mostrar afeto. E não demorar muito a refazer as conexões, pois o correr tempo é implacável, ele continua passando mesmo enquanto estamos inertes.
- Acolher os filhos anteriores do cônjuge, como fez aquela boa madrasta. Não entrar em competição com os filhos anteriores do cônjuge. Homem e mulher separados são “pacotes”, ou seja, se queremos a relação precisamos assumir a pessoa e a sua história.
- Acreditar nas gentilezas do acaso (ou outro nome que você quiser dar {eu vejo nisso a mão de Deus}) e estar aberto para elas.
- Sempre existe lugar para a bondade e generosidade, e estudos científicos mostram que o grau de felicidade é maior entre pessoas que se comunicam, que são generosas e que estão dispostas a servir.
Você não escolhe que tipo de pais terá, mas pode escolher
que tipo de filho será. Ao mudar seu comportamento como filho, vc muda
paradigmas.
William Douglas
Pai, professor, escritor
2 comentários:
Concordo. Como diria meu amado, bom e velho pai: no frigir dos ovos, o que se leva, é o que se fez aqui nesta terra - de bom ou de de ruim. Assim, para que possamos desfrutar na vida eterna, optemos pelo bom, ou melhor,
pelo bem. Que o Espírito Santo de Deus, nos auxilie em tão nobre prática. Feliz Dia dos Pais!
Concordo. Pais e filhos sempre devem estar próximos,graças tem a lei que assegura o direito de ambos,não há desculpas para ausências.
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