Chego na geladeira cara, laminada em aço, último tipo quando montei a casa, mas que ainda brilha, e contemplo um enorme selo da Hot Wheels de fora a fora, e uns outros adesivos, de temática outra, postados ali pela menina que, com 9 anos e não, como o do meio, com 4, prefere Selena’s e Miley’s. Por certo, em breve o de 2 anos virá pregar bichos simpáticos e que falam, um urso, um coelho, algo que demarque o território que já foi sóbrio e expanda o imaginário deles. Sorrio, mas me agrada a bagunça da casa.
Não tenho coragem de impedir, como devia, os riscos de caneta, os borrões de tinta, pelas paredes e, em um descuido de segundos, no sofá de marca, na cadeira fina. Ter filhos é abdicar de sanidade e modas, de zelos bem-sucedidos: qualquer que seja seu esforço, você irá perder o controle. A hipótese da tirania, que já me passou pela cabeça, confesso, não compensa: casa com filhos tem de ter bagunça, riscos, manchas, acidentes, de preferência leves, mas definitivamente é uma casa de aparência sem capricho, descuidada.
O que talvez alguém desatento não perceba é que há capricho na casa de paredes pintadas, e cuidado, sim, nos móveis destruídos, arranhados, remexidos. Capricho com os filhos, atenção com a criatividade que, temos certeza, irá mudar o mundo e resolver a fome, o câncer e as guerras. Nossos filhos, os meus e os seus, são nossa última esperança. E, já disseram, cada um que nasce é a prova cabal de que Deus ainda aposta na raça humana.
Amo a casa zoneada, loteada, perdida. A arrumação que me tranquiliza a mente, que pacifica meus sentidos, meus TOCs, manias e velhice, dura, eu já contei, poucos minutos. Eu, a mãe e as empregadas, esse exército derrotado, arrumamos tudo: uma coisa em cada lugar, cada lugar com uma coisa. Minutos, é o que basta, e vemos a assinatura deles. Logo passam aviões voando no mais alto que os braços deles pode levar, carros zunindo, músicas tocam, filmes começam a ser exibidos para, ainda que abandonados pelo meio, no final da contas serem, cada qual deles, vistos à exaustão. Não há canto secreto imune às peças de Lego, nem tintas e canetas que bastem para o que desenha castelos, pontes, faróis e pontos turísticos do mundo afora. A menina já apresentou todas as peças musicais de quem admira, mas agora está mais para mãe também, dos irmãos pequenos, embora mãe que toca mais rebu que seus novos afilhados.
Não há paz, nem sossego, fora a paz de os filhos estarem bem e o sossego da casa com crianças. Perde-se a mulher: para você alcançá-la precisa lidar com um moça e dois homens enormes, louros, altos, de olhos de um azul mais profundo e terno do que os meus já foram um dia, exigentes, sedutores, com frases mais inteligentes que as minhas e, nórdicos e vikings que são, todos com interesses hegemônicos. Quando, num dia de sorte, enfim alcanço a mulher que já foi minha um dia, ela sorri um sorriso de interesse de entrega, mas já exausta, tudo o que me resta são as migalhas do dia. E não ouso querer-lhe a noite, pois são insones não de insônia mesmo, mas por conta dos cuidados e remédios premeditadamente salpicados pela noite por algum médico que quer ter certeza de que, pela manhã, no átimo entre o acordar de um e o dormir do outro, não existirá mulher com condição alguma de atender aos meus interesses curiais. Você perde sua mulher para dois outros, e ainda sorri, satisfeito, quando eles decidem, vez ou outra, lhe dar o beijo ou abraço que, em profusão, dedicam à mãe exausta, porém igualmente encantada.
A casa não resiste, nem a arrumação por melhor que seja, mas não deixam de ser mera representação gráfica dos nossos filhos em nossa alma e mente: nada fica no lugar, a começar pelo nosso exaltado e enternecido coração, quando os filhos entram na casa da vida da gente.
7 comentários:
Os homens precisam aprender mais com o senhor. Não sou casada, mas tenho 2 filhos e não consigo me imaginar se tivesse que conviver com um desses tipos de marido que vejo hoje, casados com minhas amigas, que não conseguem conciliar a presença da esposa e da mãe de seus filhos no mesmo espaço. Não sei o que é mais difícil: educar sozinha os filhos ou administrar um marido egoísta e tirano.
Captain, my captain! É difícil acreditar que uma pessoa com tantos compromissos consiga ter "uma vida normal"...Deus o abençoe e que o sr nunca perca essa magia de ser família, acima e apesar de tudo!
Abraço fraterno...
Parabéns pelo belissimo texto, eu ainda não tenho filhos, sou casada há 2 anos e 7 meses,mais já amo a idéia de ter uma casa bagunçada, o texto biblico diz que os filhos são heranças do Senhor!
Caro Professor,
Concordo plenamente!!
Neste carnaval mesmo, prometi que iria estudar o máximo possível... mas que não me puniria pelas horas a mais que passaria com meus Pequenos.
E assim aconteceu!!!
Hoje já fui correndo para a sala de estudos no curso para colocar os estudos em dia... mas confessor que valeu a pena!
Num dos momentos em que estava estudando, minha filha de pouco mais de dois anos me falou: "Mamãe eu quero fazer desenho igual ao seu".
Expliquei a ela que não eram desenhos: "São letra e números, filha".
E ela inocentemente me respondeu: "Então agora eu quero desenhar letra e número".
Um grande abraço,
Paula Cerqueira
Concurseira
Salvador-BA
Ahhh meu querido Willian, adoro tudo que escreves, vc fala de tudo com tanta sofreguidão. Falar de sua família, sua intimidade do lar, pequenos mas importantes detalhes em sua vida que poderia ser de qualquer outro, mas para mim, é de um ídolo que pessoas comuns nem atentam para eles. Falar de Deus, de suas lidas, não menos laborosas que de outros, mas tão iguais com um pequeno detalhe, a importância que parece dar as coisas singelas, detalhes mínimos que os distraídos nem percebem, e o homem que por vezes tem que estar a frente de decidir sobre outro ser, para mim conhecê-lo no mundo virtual é como se o conhecesse a minha vida toda.
Parabéns pelo homem que demonstra ser, parabéns pela capacidade de discernir e orientar tantos outros como o faz comigo.
Grande abraço e felicidade sempre, que Deus o abençoe a vc e sua família.
Arlete Nunes
Excelente texto! Tenho dos MENINOS, um de 3 e outro de 6 e lendo seu texto me identifique plenamente.
Simplesmente lindo! Parabéns!
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