Sobre a suspensão dos concursos no Executivo federal por um ano e o desrespeito ao art. 37 da CF, a quem estuda para concurso e a população.
Nas “Memórias de um Sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida, três senhoras vêm à casa do Major Vidigal, que era o chefe de polícia, para pedir a condescendência dele em relação a um jovem soldado. O major fecha a carranca e diz que não pode fazer nada porque existe uma lei. Uma das senhoras diz: “– Ora a lei... o que é a lei, se o Sr. major quiser?” Então, completa o autor: “o major sorriu-se com cândida inocência”.
Quando o assunto é prover os cargos vagos no Executivo federal, parece que o problema é outro: "Ora a lei... o que é a lei, se a Sr.a Secretária não quiser?" (paráfrase minha).
Fiquei pasmado com a notícia vinculada na Agência Brasil, de que a secretária do Orçamento Federal do Ministério do Planejamento, Célia Correa, afirmou que “não vai ter concurso público nenhum este ano. Todos os concursos serão postergados”. Pior que isso, a secretária também afirmou que “até mesmo aqueles que tinham sido realizados e não tiveram curso de formação concluído, também serão postergados”.
Não conheço a secretária, e a crítica aqui não é pessoal, mas técnica. Não consigo imaginar como se pode querer parar a máquina estatal por um ano, nem como se pode tratar com tamanho menoscabo o atendimento aos deveres da Administração Pública, pondo-se em risco a continuidade e a qualidade dos serviços públicos.
Uma coisa é suspender concursos federais por uns poucos meses para fazer um estudo do que é mais urgente, e tal medida foi objeto de elogio meu em artigo recente. Outra coisa é parar todos os concursos por um ano, sem distinguir nenhuma prioridade. Mais irrazoável, e até mesmo cruel, é não nomear quem já passou, deixando-se em aberto vagas que precisam ser preenchidas. Até nomeados estão deixando de ser empossados. Isso é um absurdo. Mais que um desrespeito a quem estudou e passou, isto é um enorme desrespeito a quem precisa dos serviços públicos onde tais servidores são necessários.
A postura adotada despreza a Súmula STF nº 16 (“Funcionário nomeado por concurso tem direito à posse”), bem como para os demais casos, despreza as decisões do STJ e do STF.
O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 227.480/RJ, assentou que “se o Estado anuncia em edital de concurso público a existência de vagas, ele se obriga ao seu provimento, se houver candidato aprovado”. O SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA, já afirmou:
Servidor público. Concurso para o cargo de oficial de justiça do Estado de São Paulo. Candidato aprovado dentro do número de vagas previstas em edital. Direito líquido e certo à nomeação. 1. O concurso representa uma promessa do Estado, mas promessa que o obriga – o Estado se obriga ao aproveitamento de acordo com o número de vagas. 2. O candidato aprovado em concurso público, dentro do número de vagas previstas em edital, como na hipótese, possui não simples expectativa, e sim direito mesmo e completo, a saber, direito à nomeação. 3. Precedentes: RMS-15.034, RMS-15.420, RMS-15.945 e RMS-20.718. 4. Recurso ordinário provido (STJ. RMS n° 19.478/SP. Sexta Turma. Rel. Min. Nilson Naves. DJ, 25.08.2008).
Será que o novo governo, que tem tido posturas excelentes e decisões mais que elogiáveis, irá errar justamente aqui? Ignorar a Constituição, as leis, o STF e o STJ, deixar de ser sério com quem acreditou nele e fez os concursos? E, mais que tudo, ignorar as necessidades prementes dos órgãos para poderem ser eficientes?
Não quero crer que a secretária desconheça que os cargos que estão sendo providos, e as pessoas que serão nomeadas, não estão sendo chamadas “por esporte” ou diletantismo governamental. Os concursos estão preenchendo vagas criadas por lei. Não preencher tais cargos é descumprimento expresso da norma legal que criou as vagas e atentado contra a Constituição e o povo.
Não se diga, anoto, que há cortes a fazer. É óbvio que há cortes a fazer! Apenas não podem ser feitos dessa forma arbitrária, genérica e irrazoável. Não se pode cortar o orçamento sacrificando a população nem tornando inviável a prestação de serviços públicos essenciais tais como, só para dar exemplos seriíssimos, os do INSS, PF e PRF.
Ao lado desse absurdo, anote-se outro: ignorar os casos especiais, os quais, em um primeiro momento, noticiou-se que seriam poupados. Veja-se, por exemplo, o caso do BACEN, onde 43% dos funcionários irão se aposentar até 2014 (este ano, serão 15%). O BACEN tem sido elogiado internacionalmente e tem dado lucro. Como ele irá funcionar com menos da metade dos servidores que a lei diz que precisa? Ou será que na hora da “emergência” irão contratar terceirizados, sem concurso, e gastando mais do que gastariam se fossem servidores concursados?
E então, Secretária? Vamos deixar o povo mal atendido no INSS, a população e as rodovias federais à mercê de traficantes e contrabandistas de armas e drogas, e o BACEN sem meios para continuar seu excelente trabalho? Vamos deixar o trabalho escravo continuar nesse país, em pleno século XXI, por falta de fiscais do trabalho?
Não posso acreditar que uma máquina do tamanho do Executivo federal será tratada como se fosse uma padaria, onde o dono pode decidir não contratar ninguém por um ano. O Executivo federal é grande demais, complexo demais, e tem responsabilidades demais para ser tratado dessa maneira. Não me parece ser razoável, nem adequado, uma suspensão geral como esta, anunciada quase com naturalidade, como se estivéssemos tratando, já disse, de uma padaria, e não de um governo que atende 180 milhões de pessoas.
Custa crer que as expectativas da população e das pessoas que se preparam para se tornarem servidores serão tratadas dessa forma. Mais que isso, que a lei que criou os cargos será ignorada. Não sei se a Secretária é concursada, mas, se for, deveria se lembrar de como é custoso se preparar para um concurso e, de repente, ouvir que o governo mudou de ideia e que – por um ano inteiro – não vai mais cumprir as leis nem realizar os concursos que a Constituição prevê.
O que a Sr.a Secretária quis dizer ao afirmar que fará concurso apenas se houver uma “emergência”? Será que desconhece que não dá tempo para fazer um processo seletivo quando a "emergência" aparece? Que o Estado tem que se precaver e prover os cargos antes das emergências? Será que ignora que atender bem no INSS, no SUS e ter polícia trabalhando já é uma emergência?
Outro ponto a ser anotado é que as pessoas aprovadas no concurso dentro do número de vagas, bem como aquelas que surgirem em razão de desistências, ou nas hipóteses em que o edital que anunciar que o concurso vai ser utilizado para o provimento das vagas existentes e que surgirem dentro do prazo de validade do concurso, têm o direito à nomeação dentro do prazo de validade, sendo um direito reconhecido pelo STF e STJ. O que quer o governo? Obrigar a assoberbar ainda mais de ações o Judiciário, e perder várias ações que se tornarão necessárias em virtude de sua atitude impensada?
Além disso, a medida pode gerar outras ações também no campo da improbidade. Como muitas atividades são contínuas, talvez queiram fazer, quando o problema estourar, contratação de pessoal terceirizado. Isto burla o princípio do concurso publico, em prática condenada por toda a doutrina e que já foi objeto de ações do Ministério Público e condenação pelos Tribunais de Contas. Será que vamos ter que ver essas irregularidades praticadas outra vez? O governo não pode criar a urgência pelas contratações temporárias, e esta é exatamente uma das consequências de interromper os concursos. Um exemplo disso é o que está acontecendo na FIOCRUZ e em Universidades Federais.
A arrecadação está aumentando, temos casos urgentes e inadiáveis de demandas por servidores; não se pode deixar de repor aposentadorias e exonerações. Enquanto isso, o Executivo federal trata a reposição como assunto menor. Inacreditável.
O dano a quem leva a sério a proposta de se tornar servidor não é maior porque tais pessoas, as que estudam para concurso, irão migrar para os concursos não suspensos: estaduais, municipais, do Judiciário federal, e das estatais. Mas há muito dano, apesar disso.
Indago: os concursandos podem ir para outro lugar (maldade, mas podem). Mas para onde irão os cidadãos que votaram na Presidenta eleita e que precisam ser atendidos de modo digno e eficiente pela Administração Pública Federal?
A notícia, caso seja corrigida, mostrará que está havendo a falta de cuidado devido ao se tratar de um assunto tão sério. Mas, menos mal. Mais bizarro será se a notícia for confirmada, pois mostrará falta de zelo com a lei e com a continuidade, qualidade e eficiência da Administração Pública da União, não só compromisso de campanha mas, muito mais que isso, dever constitucional (art. 37, caput, da CF).
Curioso, em relação aos reajustes salariais, haver sido noticiado que “Reajustes já formalizados não têm como não cumprir”. E a lei, Senhora Secretária, a lei que criou os cargos, tem como não ser cumprida? Ou serão a lei e a Constituição Federal meros detalhes se a Sr.a Secretária assim o quiser?
*William Douglas é juiz federal/RJ, mestre em Direito, especialista em políticas públicas e governo.

15 comentários:
Essa notícia caiu como uma bomba em nós, concurseiros. Até que se saiba o que realmente vai acontecer, teremos que ser fortes para suportar essa "guerra psicológica". é lamentável...
Excelente Doutor, muito bem!
As entrevistas que foram dadas até agora pela Sra. Ministra mostram que ela parece que sabe um pouco do que está falando, ou estudou o assunto antes da entrevista, mas mostram tb uma pessoa que parece feliz com os holofotes. Deve se cercar de pessoas iguais, que gostam de atenção. A vaidade é evidente, e o prazer de ter o poder sobre tantos destinos transparece o tempo inteiro. Pode ser que, no dia 20 de março, data de reavaliação do orçamento, ela venha em outra entrevista dizer que, graças ao grande esforço, o País já pode respirar aliviado. E volta tudo a ser como antes. Enquanto isso não acontece, fica a Ministra anunciando ações misteriosas, sem soltar o decreto que regulamenta a LOA, sem dizer o que vai ser ou não cortado.
Descobri hoje, a propósito, que o corte de 3,5 bilhões se refere a crédito extraordinário. Nada tendo a ver com os concursos em andamento. Ou seja, terrorismo inútil. E mais, os órgãos é que decidirão a quais concursos dar andamento e quais suspender. Enquanto isso, as pessoas que estudaram, que pretendem ocupar um cargo público através de concurso, ao invés de indicação de algum político, têm que ficar ouvindo boatos, sem ter uma certeza de nada.
Notícia lamentável, jogando os problemas para baixo do tapete. Mal sabe ela que postergar não faz diferença alguma - talvez queiram é cancelar concursos previstos.
Em tempo, qual o motivo de tal atitude? Colocar esse rendimento/economia proveniente dos cortes em títulos no mercado? Soltar os freios do Copom e assistir a inflação exacerbar a economia? Lamentável!
Questão complicada. Por mais que certos órgãos possam por lei nomear concursados, quem vai se atrever a se indispor com supriores que controlam o dinheiro?
Só espero que, depois de tanto tempo sem concursos, assim que os serviços públicos estiverem o maior caos, não me venham com desculpas de quererem contratarem terceirizados em caráter de urgência na administração pública. Pois muitas vezes é isso que acaba acontecendo.
Prezado William Douglas,
Meu nome é Cleusa Pitanga e sou presidenta da Comissão de Concursados do Banco Central do Brasil.
Mais uma vez sua voz se levantou em defesa dos concursados e especialmente da população brasileira, tão carente de serviços públicos de qualidade.
Agradeço-o imensamente e de todo coração por esta intervenção. Ela nos nos traz imenso alento e incentivo para continuarmos nossa luta em defesa de instituições vitais para o país como o BACEN.
Almejamos integrar o corpo técnico do BACEN, instituição de excelência, onde poderemos servir da melhor maneira possível o nosso país.
Para isso estamos tentando angariar apoio no Congresso Nacional e já conseguimos que vários senadores e deputados se juntassem a nós nessa luta.
Seu texto veio fortificar ainda mais o cordão daqueles que almejam um país justo, solidário e economicamente forte.
Visite o nosso site: http://www.concursadosbacen.com.br/
Muito obrigada mesmo!
Um grande abraço,
Cleusa Pitanga
Parabéns professor pelo texto redigido sobre a questão, eu assino embaixo. E venho aqui também demonstrar minha indignação pela falta de respeito com nós.
Estão passando por cima do povo e das leis, está parecendo uma ditadura moderna do terceiro milênio.
Horrível ver pessoas despreparadas assim no governo.
Abraço ao querido William Douglas.
Sensacional, mais uma vez, William. Disse tudo.
Excelente artigo William Douglas. Uma vez mais mostra apreço por todos nós, que por mérito, queremos nosso emprego. Obrigada. Helena
Grande artigo, William!
Como sempre escorreito, didático e muito claro.
Mais do q isso, é imprescindível q possamos informar ao máximo toda a sociedade ...
É preciso contrapor de forma técnica, com respaldo jurídico.
Em parceria cito duas entrevistas dadas, uma ao Estadão http://migre.me/3YoDK, outra ao G1 http://migre.me/3YoHR, na mesma linha...
Juntos somos muito mais fortes!
Abraços!
Alexandre Lopes
Diretor do Curso Maxx
Excelente!
realmente falou tudo que a senhora secretaria DEVERIA LER...é mas aceitar esse grande desrespeito com todos nos brasileiros,mostra que o brasil nao consegue cumprir suas proprias leis, imagine tratados internacionais.ê brasil tava bom demais para ser verdade!!
Excelente colocação sobre o tema, com vocabulário claro e respaldo jurídico e político-administrativo notório. Não é possível que não tenha nenhum assessor(a) no Poder para rever essa arbitrariedade. E o pior é ouvir eles dizendo que essa decisão é uma discricionariedade do governo.
Fantastico seu texto! O Governo Dilma começa com a bomba dos concursos e aumento exacerbado dos combustiveis. Eu que não votei nesta Senhora sou obrigada a conviver com arbitrariedades. Viva a Democracia!Parabens, Douglas!
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