A manchete do
Correio Braziliense do dia 24/2/2014
estampa: “Governo tenta reverter derrota milionária”. Segundo a matéria, o “Palácio
do Planalto vai montar uma ofensiva com os líderes da base aliada no Senado
para reverter a derrota que sofreu na Câmara no início do mês, que garantiu aos
integrantes da Advocacia-Geral da União (AGU) o direito aos honorários das
causas vencidas pela União pagos pelas partes perdedoras.”
Se, contudo,
o governo imagina estar diante de uma derrota milionária, o equívoco que está
cometendo, este sim, é multimilionário. Explico o motivo. Apenas uma visão
muito míope, ou nenhuma, pode fazer com que qualquer pessoa, seja o governo,
uma empresa ou um cidadão, desprestigie o advogado que o defende. Como costumo
dizer, não devemos economizar na hora de contratar médicos, advogados e
contadores. Mas é isso que pretende o governo.
Se, por um
lado, o governo quer permanecer senhor das verbas que, a começar pelo nome,
devem pertencer aos advogados, por outro, não é propriamente uma conduta
isolada, visto que o governo já faz isso na correção monetária do desconto
padrão no IRPJ, na ridícula dimensão do desconto para despesas com educação, no
sucateamento da Polícia Federal etc. Não erra, todavia, todo o tempo. Há pouco,
por exemplo, convocou os analistas tributários aprovados e aguardando nomeação,
ajudando dessa forma a Receita Federal a funcionar melhor. Contudo, o governo deveria
ser mais assertivo ao prestigiar e valorizar as carreiras públicas. E isso deveria
ser feito por prestigiar quem já está em atuação.
Outra questão
pertinente: assim agindo, o governo abdica de criar um justo e eficiente
incentivo para a produtividade dos advogados públicos. Até quando a Administração
Pública se negará a trazer para a prestação dos serviços públicos as boas
lições que a iniciativa privada já aprendeu? Premiar resultados é inteligente,
eficaz e traz resultados.
Ainda, e mais
grave, a situação atual é de desestímulo aos advogados públicos no âmbito
federal. O que isso irá acarretar? Muito simples: competentes que são, farão
concursos para as procuradorias municipais e estaduais e a União irá perder os
bons advogados que tem. Óbvio que nem todos farão novos concursos, mas
certamente haverá uma perda considerável.
E isso vai
causar um prejuízo estratosférico. O que significa que aquilo que o governo
entende como derrota é, para o país e a União, uma vitória, mais do que para os
próprios advogados.
Os movimentos
de menoscabo aos advogados da União não são novos. A tentativa de submetê-los a
meros reprodutores do pensamento da chefia vem se intensificando desde a tentativa
de tornar membros da AGU, indicados não concursados, um verdadeiro "Trem-bala
da alegria", do qual falamos quando escrevemos a respeito
do malsinado PLP 205/2012, cujo texto está disponível em: <http://blogwilliamdouglas.blogspot.com.br/2013/08/a-nova-pec-37-agora-querem-calar-os.html>.
A advocacia
pública precisa ser de Estado e não de governo, e uma boa advocacia se faz com
a valorização e o respeito aos advogados e aos seus direitos.
Enfim, a
Câmara dos Deputados andou bem e merece aplauso. Lamentável é o esforço do
governo em desfazer algo de bom que se fez. Como diz a matéria, os advogados
públicos estão precisando fazer um grande “corpo a corpo”. O que não seria
necessário caso o governo prestigiasse mais os cérebros dos quais já dispõe e
que corre o risco de perder, bem como de não dispor, no futuro, de pessoal
habilitado para novas contratações já que haverá preferência pelas
procuradorias que valorizam os seus profissionais.
Finalizando,
me indagaram se não me incomodaria com o “risco” de a remuneração dos advogados
públicos exceder à dos magistrados. Respondo. Em princípio, no momento atual, esse
risco está longe de ocorrer, pois a divisão dos honorários não bastaria para
tanto. Porém, faço votos de que o aumento de produtividade incentivado pela
percepção dos honorários torne esse risco cada vez mais próximo. Um dos motivos
dessa torcida é que o país precisa de dinheiro para pagar as despesas
correntes, os estádios inúteis e um porto bilionário em Cuba. Indo além, não é
porque a remuneração dos magistrados está aquém do correto que irei nivelar por
baixo e ir contra uma medida salutar tomada em prol da União Federal, que é
quem mais ganha com a qualidade e produtividade dos advogados públicos. Espero
que se resolva a situação vexatória em que os juízes se encontram, mas nunca
através da socialização da remuneração inadequada.
Como disse o
presidente nacional da OAB, Marcus Vinicius Furtado Coêlho, “advogado
valorizado significa o cidadão respeitado” e a decisão da Câmara “representa
uma enorme conquista para os advogados públicos brasileiros”, ao que
acrescento: quem ganhou foi o país, que, mercê da decisão do Plenário da Câmara
dos Deputados, ao analisar o projeto do novo CPC, deu um grande passo em
direção à maior valorização da advocacia pública.
Por tudo isso, a melhor expectativa é a de que o Senado Federal trate a
questão com visão estratégica e de Estado, prestigiando a Câmara dos Deputados
e, principalmente, valorizando os que defendem a União. Confirmando a medida,
teremos evolução legislativa favorável ao bom funcionamento do Estado
brasileiro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário